Ciência,Filosofia ou Religião

Ciência, Filosofia ou

Religião?

Obra de Rodin permite
refletir sobre tríplice aspecto do Espiritismo

Décio landoli Junior


    Estava
eu visitando o museu de Rodin em Paris, quando deitei meus olhos sobre a obra
"As Três Sombras"; achei intrigante o fato de o artista ter feito três homens
apontando seus braços esquerdos para o mesmo lugar. Observando melhor, percebi o
porquê do nome da obra; são três estátuas exatamente iguais em posições
diferentes, apontando para uma mesma direção, evidenciando um mesmo
objetivo.



Não sei por
que, mas naquele momento pensei no dilema que vivem alguns espíritas sofrendo
para classificar a doutrina como sendo uma ciência, uma filosofia ou uma
religião, como se esta questão fosse uma espécie de "enigma" ou um "mistério",
justamente no Espiritismo, que nos permite a possibilidade do total despojamento
desta natureza de coisas, já que, em última análise, elas acabam por se
transformar em dogmas a serem impostos.


Vi aquela
obra, "As Três Sombras", como as três faces da ânsia do conhecimento humano;
lembre-se que tal idéia é um devaneio da minha mente e, provavelmente, nem
passou pela idéia de Rodin na concepção da escultura. Vi aqueles três homens,
diferentes em suas posições, mas iguais em seus objetivos, como a representação
dos três grandes meios de busca da humanidade: busca do conforto intelectual,
mas também espiritual, busca da harmonia e da felicidade, ou seja, busca da
verdade, da verdade como conceito fundamental, busca da verdade como resposta às
suas questões mais perturbadoras e ao mesmo tempo, e por isso mesmo, mais
fundamentais para a sua homeostase psíquica.


A verdade;
por definição, deve ser única e imutável; única, posto que se é verdade não pode
ter uma outra versão ou uma outra possibilidade dentro daquela condição
específica à qual existe e determina, e também imutável, posto que se é verdade,
é constante dentro da realidade em que é aferida.

Esta verdade, a que me
refiro, é o conhecimento humano, determinando a compreensão de si mesmo e do
universo que o cerca, afastando o medo gerado pelo desconhecido e,
conseqüentemente, determinando a serenidade, o equilíbrio, o
bem-estar.

Esta
procura pela verdade, como definida acima, é algo que sempre existiu na história
da humanidade, pelo menos desde que o homem agregou condições suficientes para
indagar sua origem e seu destino.

Vejo a ciência, a filosofia e a
religião como caminhos, alternativas, ou modos de buscar esta verdade reveladora
e acalentadora, pois se a ciência busca o alívio das dores humanas, o mesmo se
dá com a religião e com a filosofia; entretanto, várias são as diferenças entre
estes caminhos.

Iniciemos
com uma análise da religião, que de certa forma pode ser considerada a mais
antiga e a mais difundida maneira de busca, pois ao que deseja trilhar este
caminho, basta que haja disposição para tal, pois não exige nenhum conhecimento
prévio ou preparo intelectual, não solicita estrutura ou complexidade, apenas a
reflexão íntima, partindo do princípio que determinado argumento encontra eco em
seu coração e provoca bem-estar. Observe que não uso o termo religião como
instituição, mas como ato ou intenção de religar-se, de retornar à origem, de
chegar à causa de maneira praticamente imediata, usando como veículo a emoção, o
sentimento, sem nenhuma necessidade de comprovação ou coerência, pois economiza
etapas, levando aquele que crê diretamente à verdade que é reconhecida por seus
anseios e nada mais.


É muito
reconfortante, pois sacia nossa necessidade de saber, de tentar entender, sem
que fiquem as angústias do desconhecido; entretanto, é um caminho bastante
impreciso já que para usufruir de sua velocidade instantânea, desfaz-se de
qualquer outro fator regulador ou controlador que não seja seu próprio veículo,
qual seja, a emoção.


De uma
maneira ou de outra, é possível admitir que se possam atingir condições
totalmente equivocadas por este caminho, mas que tragam, mesmo assim, a sensação
necessária para o bem-estar e a serenidade pretendidas e almejadas. De qualquer
modo, o objetivo final é aquela verdade que nos fará felizes.


Já a
ciência pode ser considerada mais recente; nem por isso é nova e busca a tal
verdade de maneira incessante, porém sem nenhuma pressa; entretanto, pensa
obsessivamente na precisão, preocupa-se com o erro, resistindo por isso às
conclusões finais óbvias e fáceis.


Tem como
veículo a experimentação, não se contenta com os primeiros resultados, esperando
sempre a confirmação que vem de mais experimentações, trilhando o caminho de
forma vagarosa, mas confiante, muitas vezes podendo beirar a
pretensão.


A ciência
busca a verdade, todavia, não especula ou não acredita no que vai muito além do
que possa ser medido ou observado naquele momento. É muito mais precisa e
segura, mas não traz conforto imediato.


De uma
maneira geral, temos a necessidade de ambas as formas de busca, pois podemos ir
reformulando nossos conceitos religiosos pela evolução da ciência, corrigindo os
rumos imediatistas da religião e ao mesmo tempo usando esta última como bússola
na determinação da direção a ser pesquisada e experimentada.


No meio
destas duas vias encontramos uma terceira, que nos parece fazer uma ponte entre
as duas primeiras, a filosofia, que municia a ciência de hipóteses a serem
experimentadas e sacia a religião, dando sentido aos seus conceitos emocionais.
A filosofia usa como veículo a razão, portanto, experimenta pela observação as
hipóteses que constrói, geradas por suas idéias e motivações. Seu laboratório é
a mente e suas argumentações as ferramentas que constroem a verdade.


É um
caminho intermediário que não tem a morosidade da ciência que necessita de tempo
para a consolidação das suas idéias, mas não é tão rápido quanto a religião já
que elabora seus conceitos e bases reais e racionais e não p mente
emocionais.


A filosofia
também busca a verdade e tem vários pontos de inter secção com os
demais.

Voltando ao trabalho de Rodin eu diria que a figura do centro é
filosofia, a da direita é a ciência e esquerda a religião; todos os três
indicando o mesmo objetivo que é a compreensão da verdade.

Mais adiante,
no mesmo museu, pude observar a obra "Porta do Inferno", onde várias outras
figuras de Rodin, representam o "Inferno de Dante"; notei que os sombras estavam
no ponto mais alto da obra e que apontavam para outra figura logo abaixo delas:
"0 Pensador".


"O
Pensador" de Rodin faz uma magistral representação do intelecto humano
subjugando seu físico, sua força, alcançando sua verdade pelo pensar e pelo
sentir, como mostrando que, independentemente da forma de busca, do caminho
escolhido, da afinidade por esta ou aquela forma, ao atingir o objetivo final,
não existirão mais diferenças, pois os caminhos ficarão para trás.


Ora, se
três caminhos diversos convergem para um mesmo ponto, quanto mais próximos do
ponto, mais próximos serão os caminhos, sendo bastante possível que em
determinado momento possam confundir-se formando um caminho único.


Um caminho
formado por três outros é único, não é nenhum dos três que o formou, mas é, ao
mesmo tempo os três que lhe deram origem. É assim que vejo o Espiritismo, um
ponto à frente da ciência, da filosofia e da religião, sendo portanto único, e
ao mesmo tempo, os três.


É inútil
tentar classificar o Espiritismo segundo os nossos conceitos antigos; para
entendê-lo é necessário transgredi-los, desenvolvê-los, mesclando as
possibilidades de cada um, suprindo as deficiências de um com as vantagens do
outro, e se importando menos com a designação e mais com o conteúdo que, como
podemos concluir, é revolucionário e, portanto, inicialmente desconfortável para
muitas pessoas.


Abaixo do
homem intelectualizado, transcendendo sua condição física, estão suas mazelas e
dificuldades, inúmeras, porém superadas pelo pensador, que podem ser observadas
nos detalhes da "Porta do Inferno" de Rodin, ou seja, o inferno é a ignorância,
é a distância da verdade, que deve ser superada pelo esforço nas três frentes de
busca, mas que será finalmente redimida pela luz do saber, do conhecer, do
compreender.


Eis o
privilégio ainda não bem entendido por alguns espíritas; privilégio explicitado
por Kardec quando afirma que o Espiritismo é a um só tempo ciência, filosofia e
religião; o privilégio de não precisar mais cindir-se em sua busca, de poder
crer, ter fé, sem abdicar da razão e buscando na experimentação não só a
confirmação, mas o entendimento, o detalhamento de tudo o que mais queríamos
saber:


– De onde
viemos? – Quem somos?


– Para onde
vamos?



O
autor é médico cirurgião, escritor com três livros publicados e membro da
Associação Médico-Espírita de Baixada Sentiste; integra o Centro Espírita Dr.
Luiz Monteiro de Barros, de Santos-SP.


Artigo
publicado na Revista Internacional de Espiritismo, Ano LXXX, no 03. Matão, Abril
de 2005 e reproduzido com autorização do autor

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Sobre aricarrasco

sou simples mas co objetivos e convicções definidos.
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