Licantropia

LICANTROPIA

I –
CONCEITUAÇÃO

Como uma das doenças
mentais que provoca um desdobramento de personalidade, ou, como se diz em
psiquiatria, uma bilocação, a licantropia consiste no fato de que o indivíduo
atingido por essa doença transforma-se em lobo ou se comporta como tal. As
ocorrências de licantropia são muito raras na atualidade, mas até o século XVII,
acreditava-se realmente que elas ocorriam sempre na Lua cheia. Essa associação
entre a Lua e a loucura assassina é muito antiga. Entre os romanos,
acreditava-se nessa transformação imposta pela Lua aos que mereciam tais
castigos.

Durante toda a Idade Média,
acreditou-se formalmente nessa transformação. Dizia-se que os lobisomens
percorriam os campos e eram temidos pelos homens mais valentes. Supunha-se que
esses animais fossem feiticeiras possuídas do segredo de se transformarem em
bestas graças a seus terríveis poderes. Milhares de pessoas, suspeitas de se
entregarem a essas metamorfoses diabólicas, foram queimadas na Idade Média.
Queimavam-se até mesmo alguns "espíritos mais fortes" que se recusavam a
acreditar na existência dos lobisomens, como ocorreu com um tal de Guilhaume de
Lure, em Poitiers, na França, segundo relato do escritor francês A. Ruffat, em
La Superstition à travers les âges (1977). Em 1573, um decreto do Parlamento de
Dôle, na França, determinava que fossem abatidos os lobisomens. Claude Seignolle
em Les Evangiles du Diable (1967) conta que no Périgord, na França, determinados
homens, notadamente os filhos de padres, eram forçados, a cada lua cheia, a se
transformar em lobisomens. Era nessa noite que o mal os atingia. Eles só
retornavam à forma humana depois de terem agredido ou assassinado suas vítimas.
O que nos interessa nessas lendas não é a verdade parcial que elas podem conter.
Seguramente a metamorfose do homem em lobo jamais existiu, apesar da sua
ocorrência estar relatada em numerosas lendas e em quase todas as
culturas.

Até o século XIX, era hábito entre
os camponeses evitar os passeios durante as noites de lua cheia. Acreditava-se
que, além de correrem o risco de encontrar um lobisomem, poderiam também se
transformar em um deles. O lobisomem resultava da transformação inesperada e
violenta de um honesto e benéfico cidadão em um monstro sanguinário sob o efeito
das radiações lunares. Evitava-se dormir com a cortina aberta, durante a lua
cheia, com receio de que as pessoas no interior de suas casas viessem a ser
atingidas por golpe de lua que lhes provocasse uma perturbação
mental.

Paradoxalmente, existe um
fundamento médico para esse mito: os indivíduos que sofrem de lupus eritematoso,
doença assim designada, não em referência ao lobisomem, mas em razão das lesões
cutâneas com que essa doença ataca o rosto, contornando-o como se fosse uma
máscara de carnaval. Além do seu aspecto semelhante ao de um lobo, origem de sua
designação, os doentes afetados por esta moléstia só saíam à noite, pois as
radiações solares agravavam suas lesões. Ademais, essa doença é acompanhada, às
vezes, por hirsutismo, ou seja, desenvolvimento excessivo do sistema capilar.
Era suficiente vislumbrar um paciente, à noite, para que se acreditasse ter
encontrado um ser humano metamorfoseado em lobo. Foi com base nesse mito que o
escritor inglês Robert-Louis Stevenson (1850-1894) se inspirou para escrever o
célebre romance The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1886).
Recentemente, a Editora Nova Fronteira publicou-o com o título de O Médico e o
Monstro (1992), numa excelente tradução e posfácio de Rodrigo
Lacerda.

Desde que o psiquiatra e psicólogo
alemão Carl Gustav Jung (1875-1961) estudou o complexo simbolismo lunar, em
Mysterium coniunctionis (recentemente traduzido para o português pela Editora
Vozes), a psicanálise tem se dedicado à análise das lendas relativas aos
homens-lobos e à sua versão asiática, os homens-tigres.

Segundo certos especialistas, como
Sandor Ferenezi, a influência do ciclo lunar sobre os impulsos sexuais
agressivos pode ser explicada cientificamente. Para o psiquiatra norte-americano
Arnold L. Lieber, da Universidade de Miami, Flórida, EUA, autor do célebre livro
The Lunar Effect (1978) existe um aumento de atos de violência e delitos sexuais
no momento da lua cheia.

Estas considerações nos fazem
recordar o conselho do astrônomo francês François Arago, em sua Instructions sur
les Voyages scientifiques (1857): "Adotar as opiniões populares de improviso é
expor-se a introduzir na ciência e a seu grande detrimento uma multidão de
noções confusas, apoiadas sobre fenômenos mal vistos e mal discutidos; recusar
as mesmas opiniões sem exame é faltar, com bastante freqüência, à ocasião de
alguma descoberta importante".

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

II – UM NOVO
NABUCODONOSOR

A Revue Spirite de 1865,
página 343, insere um artigo com o título – "Um novo Nabucodonosor", da autoria
de Allan Kardec, como é de supor-se, artigo que estuda um interessante caso de
licantropia.

De Charkow (Rússia) escrevem-lhe
sobre o caso que tentaremos resumir, abaixo:

Na família R… viviam dois irmãos,
Alexandre e Voldemar. Este último, impressionava pelos seus olhos, produzindo em
quem os mirasse uma sensação estranha e perturbadora; o mesmo acontecia com seu
irmão, em cujos olhos negros havia também um certo magnetismo fascinador, embora
em menor grau. Voldemar, na escola, sobressaia-se sobre Alexandre, assombrando
seus mestres e colegas por aptidões fora do comum. Jactava-se disso, sobretudo
diante do irmão, sobre quem despejava seus motejos e zombarias.

Passam-se os tempos. Voldemar morre
aos 16 anos. O irmão se transforma e passa a ter hábitos esquisitos, anormais,
intercalados por atos e hábitos inteiramente normais, não sendo, pois, um doido
comum.

Acreditando-se num desarranjo
cerebral, foi Alexandre internado numa casa de saúde. Porém – coisa estranha! -,
ele se alterou completamente e nada em sua conduta ou em suas palavras denotava
um cérebro doentio, fazendo com que os médicos cressem até numa intriga de
família.

O rapaz dirigia-se muitas vezes
para uma choupana que servia de galinheiro, despojava-se de suas vestes e ali
permanecia insistentemente.

Quiseram pôr os bens dele sob
tutela; mas as comissões nomeadas, para esse fim, sempre que iam interrogá-lo
recebiam respostas comedidas e bem sensatas, e se retiravam, por isso,
desapontadas.

Esses acontecimentos começaram em
1842, a até, 1865 não haviam cessado.

As vezes, Alexandre ficava num
pardieiro, completamente nu, em pé, exposto a todos os ventos e a temperaturas
baixíssimas.

Poucas vezes se servia da palavra
humana; à maneira dos animais, adquiriu-lhes o mugido especial.

"À força de ter a cabeça inclinada,
ele não mais a pôde levantar; seus pés atingiram uma largura desmesurada, não
lho permitindo caminhar" – declara o informante do caso, parente próximo da
família R… o que conviveu com os irmãos R …

A exceção do que falamos, e dos
olhos, seu aspecto não apresentava nada de extraordinário. Apenas uma expressão
de sofrimento lhe pesava sobre o semblante, e exclamava de vez em quando:
"Quando afinal acabará isso?" Outras vezes, chega a pronunciar o nome do seu
irmão falecido. Certo dia, ao lha perguntarem o motivo de sua conduta,
respondeu: "Não me faleis nisso; é uma falta de vontade."

Tendo sido enviados seus cabelos a
uma célebre sonâmbula, esta respondeu que se estava diante da doença de
Nabucodonosor.

Das considerações feitas por
Kardec, retiramos os trechos a seguir:

"Um fato salta evidentemente desse
relato: é que este rapaz não é um louco, na acepção científica da palavra; ele
goza da plenitude de sua razão, quando o quer. Mas qual pode ser a causa de
semelhante esquisitice, nesta idade? Cremos que a Ciência, com suas fontes
puramente materiais, levará muito tempo entes de achá-la.

"Há entretanto outra coisa que
simples mania: é a assimilação da voz e dos gestos próprios dos animais. Têm-se
visto, é verdade, indivíduos abandonados nos bosques, desde tenra idade, que
vivem com os animais, a lhes adquirem as vozes o os costumes, por imitação; mas
aqui o casa é diferente: esse rapaz realizou estudos sólidos, viva em suas
terras e dentro de uma aldeia, está em contacto diário com seres humanos;
portanto, tudo isso nada tem que ver com a seu isolamento e seus hábitos.

"É, disse a sonâmbula de Londres, a
doença de Nabucodonosor; mas que é esta doença? A história deste rei não é uma
lenda? É possível que um homem seja transformado em animal?(1) Contudo, se se
relaciona a descrição bíblica com o fato recente de Alexandre R…, nota-se
entre elas mais de um ponto de semelhança. Compreende-se que o ocorrido em
nossos dias possa ter sucedido noutros tempos, e que o rei da Babilônia haja
sido atingido de um mal semelhante. Se então o rei, dominado por influência
análoga, abandonou seu palácio, como Alexandre R.. . abandonou sua casa; se ele
viveu e imitou as vozes, ao modo dos animais, como Alexandre, pode dizer-se, na
linguagem alegórica do tempo, que ele fora transformado em animal. Isto destrói,
é certo, o milagre; mas quantos milagres tombam, hoje em dia, diante das leis da
Natureza, descobertas diariamente!"

Kardec lê a narrativa, que lho
remeteram da Rússia, na Sociedade Espírita de Paris, para objeto de estudo. Três
comunicações mediúnicas foram então obtidas.

A primeira é de Voldemar, que
confessa, irritado, ser ele a causa de todas aquelas perturbações, e fala de uma
ligação íntima entre ele e Alexandre, ligação que deveria prosseguir até na
morte. Mais além, declara. "Não podendo constrangê-lo a seguir-me, pela menos
imediatamente, eu empreguei o poder magnético que possuo em grau extremo, a fim
de forçá-lo a abandonar sua vontade e seu ser ao meu livre-arbítrío. Ele sofre
nesta posição … tanto melhor!"

Seque-se a segunda comunicação,
obtida pelo mesmo médium, da autoria do Espírito protetor dos dois irmãos.
Revela ter sido Alexandre, em outra existência, subordinado a Voldemar, em
diversas ações más contra a sociedade, ações que são, hoje, a fonte de seus
sofrimentos. Eles prometeram que jamais se trairiam ou se separariam. Morto
Voldemar, Alexandre deveria, sob o império da promessa, seguir seu irmão ao
túmulo, mas, cansado do jugo que há muito suportava, tomou a resolução de lutar.
Seu irmão, revoltado com isso, não o podendo matar materialmente, o tem feito
moralmente, envolvendo-o numa rede de influências perniciosas que determinaram a
obsessão em foco.

"O sonâmbulo que designou essa
afecção pelo nome de doença de Nabucodonosor – declara o mesmo Espírito – não
estava longe da verdade como se poderia crer, visto como Nabucodonosor não era
senão um obsidiado que se persuadia de ter sido transformado em animal. É então
uma obsessão, que não excluí, como vós o sabeis, a ação da inteligência e não a
aniquila de maneira fatal; é um dos casos mais notáveis, cujo estudo só pode ser
proveitoso para todos."

Quando Voldemar se afasta, o irmão
recobra sua energia própria, podendo libertar-se. Como esse estado contraria a
Voldemar, este não cessa de exercer sobra o irmão uma ação magnética contínua.

Por fim, citamos a terceira
comunicação, recebida através de outro médium, do guia espiritual deste,
assinada por São Benedito, que diz, entra outras coisas:

"Meus bem-amados, certos fatos
relacionados nas Escrituras são olhados por muita gente como fábulas feitas para
as crianças. Porque não são compreendidos, são desprezados, recusando-se
dar-lhes crédito. Entretanto, desprendido da forma alegórica, o fundo ali é
verdadeiro, o somente o Espiritismo poderia fornecer a chave."

"A punição de Nabucodonosor não é
pois uma fábula; ela não esteve, como vós o dissesses muito judiciosamente,
transformado em animal; ele estava, sim, como o paciente que vos ocupa no
momento, privado por algum tempo do livre exercício de suas faculdades
intelectuais, e isto, em condições que o assemelhavam ao selvagem, fazendo do
déspota poderoso um objeto de piedade para todos: Deus o havia ferido em seu
orgulho.

"Todas estas questões se prendem
àquelas dos fluídos o do magnetismo. No rapaz, há obsessão e subjugação; ele é
de grande lucidez no estado de Espírito, mas seu irmão exerce sobre ele uma
influência magnética irresistível. Voldemar o atrai facilmente para fora de seu
corpo, quando uma pessoa amiga e simpática lá não esteja para o reter; Alexandre
sofre quando está desprendido: constituí para ele uma punição, e é então que faz
ouvir seus bramidos ferozes.

"Não vos apresseis, pois, em
condenar o que está escrito nos livros sagrados, como o fazem a maior parte
daqueles que vêem apenas a letra e não o espírito.

"Todos os dias vós vos instruireis
mais a mais, e novas verdades se desvendarão aos vossos olhos, visto estardes
longo de haver esgotado todas as aplicações daquilo que sabeis de Espiritismo."

Terminando a interessante
exposição, Kardec declara: "Resulta desta explicação, perfeitamente racional,
que esse rapaz está sob o império de uma obsessão, ou melhor, de terrível
subjugação, semelhante à que sofreu o rei Nabucodonosor."

Passa Kardec, em seguida, a
considerar o motivo das obsessões, que muitas vezes são provas e punições,
concluindo que o rei poderia muito bem estar sob a jugo de um Espírito malfazejo
que o constrangeria a agir como um animal, sem entretanto metamorfoseá-lo em
animal.

Revista Reformador – Fevereiro 1978
– (Mônica Valéria Torres Trajano)

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sou simples mas co objetivos e convicções definidos.
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