Obsessão e Epilepsia

OBSESSÃO
E EPILEPSIA

Existe ligação entre os casos de epilepsia e os
processos obsessivos?

Por: Osvaldo Hely
Moreira

A epilepsia constitui-se num dos desafios da
medicina devido a sua alta incidência (0,5% a 2% da população), diagnóstico
etiológico difícil e abordagem terapêutica ainda discutida. A história relata
casos epiléticos sempre sendo vistos como seres envolvidos por anjos ou
demônios, já que a intuição demonstrava ao homem a conexão de determinados
processos de convulsão com atuação obsessiva. A responsabilidade dos
profissionais da área médica, diante dessa patologia, cresce não em função da
alta incidência relatada, mas também em função de suas implicações sociais e
emocionais. O epiléptico encontra dificuldades para progredir em sua vida social
e profissional. Seu campo de trabalho é restrito e suas inibições, pelo receio
da ocorrência das crises convulsivas, levam-no a evitar a convivência habitual
na sociedade, além do fato de ver-se obrigado a utilizar medicação de forma
crônica. Essa visão da patologia de estudo, leva-nos, profissionais médicos
espíritas, a buscarmos soluções mais definitivas para esses pacientes, motivando
a realização desse estudo.

DEFINIÇÕES

As
epilepsias são um grupo de distúrbios caracterizados por alterações primárias,
crônicas e recorrentes na função neurológica, causadas por anormalidades na
atividade elétrica do cérebro. Podem ser: Idiopática (primária ou genuína) –
indivíduo sem lesão neurológica aparente; Secundária – resultado de lesão
neurológica ou alteração estrutural do cérebro. Hipóxia e isquemia perinatal;
distúrbios genéticos; doença cérebro-vascular; mal formação congênita;
distúrbios metabólicos; tumores; drogas; infecção; traumatismos.

Obsessão – 1. Do latim
obsessione – impertinência, perseguição, vexação. Preocupação com determinada
idéia, que domina doentiamente o espírito. (Dicionário Aurélio); 2. “É a ação
persistente que um espírito mau exerce sobre um indivíduo. Apresenta caracteres
muito diversos, desde a simples influência moral sem perceptíveis sinais
exteriores até perturbação completa do organismo e das faculdades mentais”. (O
Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec, cap. XXVIII, item
81)

Esclarecendo, Kardec continua: “A
Obsessão decorre sempre de uma imperfeição moral do obsediado, que dá
ascendência a um espírito mau…”
.

Mas, por que pensar nessa
associação (epilepsia e obsessão)?

A história relata-nos, há milênios, os
quadros epilépticos sendo atribuídos à ação de bons ou maus espíritos. Com o
advento de Jesus surgem novas informações confirmando essa associação. No
Evangelho de Lucas, cap. 9, versículo 38 a 43 encontramos o seguinte relato: “A
cura do jovem possesso: E eis que, dentre a multidão, surgiu um homem dizendo em
voz alta: Mestre, suplico-te que vejas meu filho porque é o único. Um espírito
se apodera dele e, de repente, grita e o atira por terra, convulsiona-se até o
espumar, e dificilmente o deixa, depois de o ter quebrantam. Roguei aos teus
discípulos que o expelissem, mas eles não puderam. Respondeu Jesus: Ó geração
incrédula e perversa! Até quando estarei convosco e vós sofrereis? Traze o teu
filho. Quando ia se aproximando, o demônio o atirou no chão e o convulsionou,
mas Jesus repreendeu o espírito imundo, curou o menino e o entregou ao
pai”.


Cada
órgão do corpo é submetido ao governo do espírito… Quando erramos, entramos em
situação de culpa, que significa desequilíbrio de nossa mente, que, por sua vez,
tem reduzida a sua capacidade de governo celular adequado, gerando no
perispírito uma “área de remorso”

Essa
passagem do evangelho é também encontrada no Evangelho de Marcos, 9: 14 a 29,
que nos versículos 25 e 26 relata o estado do jovem após a ação de Jesus: “…
sai desse jovem e nunca mais tornes a ele. E ele, clamando, agitando-o muito,
saiu, deixou-o como se estivesse morto, ao ponto de muitos dizerem:
morreu”.

Os relatos de Lucas e Marcos permitem diagnosticar o quadro
apresentado pelo jovem como epilepsia com crise generalizada
tônico-clônica.

Na obra de Kardec encontramos mais informações sobre o
assunto. Em O Livro dos Espíritos, cap. IX, parte 2a, pergunta 474, encontra a
seguinte resposta: “Sem dúvida e esses são os verdadeiros possessos (…) isto
nunca ocorre sem que aquele consinta, quer por sua fraqueza ou por desejo;
muitos epilépticos ou loucos, que mais necessitam de médicos que de exorcismos,
têm sido tomados por possessos”.

O relato do Evangelho confirma a
existência de quadros epilépticos secundários à ação de obsessores desencarnados
e a fala dos espíritos na obra de Kardec esclarece que existem quadros de
epilepsia não secundários à interferência espiritual e ainda, na segunda parte
do mesmo livro, Kardec fala da postura cármica das doenças.

Esse estudo
objetiva encontrar esclarecimentos sobre a questão apresentada. Quando há
obsessão ou não?

No entendimento da ação obsessiva levando à crise
convulsiva, vemos que da mesma forma que a enfermidade orgânica manifesta-se
onde há carência, o campo obsessivo desloca-se da mente do paciente para o
departamento somático onde as imperfeições morais do passado deixaram marcas
profundas no perispírito.

A
INFLUÊNCIA MENTE-CORPO

Todos os nossos corpos e suas células têm
sua função governada pelo espírito. Cada órgão do corpo é submetido ao governo
do espírito. Quando erramos, entramos em situação de “culpa”, que significa
desequilíbrio de nossa mente, que, por sua vez, tem reduzida a sua capacidade de
governo celular adequado, gerando no perispírito uma “área de remorso”. Essa
área seria a região de nossos corpos utilizadas para o erro ou que nos lembra
pessoas ou situações ligadas ao erro. No nosso estudo, essa área seria a região
cerebral utilizada inadequadamente como abuso da inteligência ou, por exemplo,
como conseqüência de traumatismos provocados em atos de
auto-extermínio.

Essa região, o cérebro, no caso em estudo, terá não
semente sua função prejudicada, mas terá também suas defesas vibratórias
reduzidas, possibilitando a ação obsessiva sobre ela. (A ação obsessiva dá-se na
área previamente lesada pelo obsediado). A ação obsessiva gera maior
desequilíbrio da fisiologia pela associação da emissão mental tóxica do
obsessor, agravando ou fazendo evidente o processo de doença.

Aplicando
esse raciocínio à epilepsia, o tecido cerebral é composto, por células de limiar
de estimulação baixo. Pequenos estímulos mecânicos ou elétricos aplicados
diretamente no cérebro podem desencadear crise convulsiva. Compreenderemos a
ocorrência da convulsão, ao imaginarmos a falta de equilíbrio do encarnado sobre
a região cerebral, associada à emissão tóxica do obsessor.

Resumindo,
diríamos que no caso da epilepsia, a convulsão ocorre por excitação interna ou
anímica (sem obsessão), associada ou não à excitação externa
(obsessão).

Para facilitar o estudo, utilizaremos exemplos retirados de
obras espíritas onde existe a análise detalhada dos casos e que nos permite uma
visão mais ampla e conclusiva.

ALGUNS
CASOS DE EPILEPSIA

Caso 1: Livro Grilhões Partidos,
de Manoel P. de Miranda

Caso Ester: moça, de 15 anos, previamente
“normal”. Quadro súbito de contratura generalizada, palidez cutânea, sudorese
abundante. Segue-se atitude agressiva do pai, a quem sempre tratou com carinho,
seguida de palavras duras, gritos e agitação. Após a medicação injetável, ocorre
sonolência intercalada por convulsões.

Diagnóstico espiritual: “Disritmia
cerebral secundária a ligação obsessiva, com manifestação do obsessor através de
psicofonia atormentada, após a convulsão. O Eletroencefalograma [ECG] era normal
antes e após a convulsão. Se não forem evitados os ataques de subjugação,
aparecerá lesão cerebral, que já existe no perispírito”.

Ester era
espírito com grave débito no passado, com lesão perispiritual na região
cerebral. Utilizou sua inteligência para causar prejuízo grave à vida de vários
semelhantes.

Observar que após a convulsão seguia-se a fala do obsessor
(fala lógica e inteligente), dirigida contra o pai de Ester.

O
diagnóstico médico seria crise convulsiva generalizada tônico-clônica seguida de
estado crepuscular como a ocorrência de confusão mental, inquietação motora,
automatismos, distúrbios da fala, do conhecimento e da ação, após a crise
convulsiva.

Esse caso mostra a ocorrência da convulsão são e ressalta a
importância da terapia desobsessiva na prevenção de lesão do corpo
físico.

Bezerra de Menezes indica o tratamento: “A terapia há de ser
múltipla, acadêmica e espírita”, mostrando a importância de usar medicação
apesar de ser processo de origem espiritual.

Caso 2: Livro: Nos Domínios da
Mediunidade, Suely C. Schubert

Caso Pedro: Paciente com doença
mental.
Visão espiritual: Observa-se o obsessor ligando-se a Pedro,
seguindo-se convulsão generalizada tônico-clônica, com relaxamento de
esfíncteres. O mentor Aulus afirma ser possessão completa ou epilepsia essencial
e analisa que, no setor físico, Pedro está inconsciente, não terá lembrança do
ocorrido, mas está atento em espírito, arquivando a ocorrência e
enriquecendo-se. Passado espiritual semelhante aos demais pacientes analisados,
com obsessão na espiritualidade antes da atual reencarnação.

Após a prece
e o passe dos demais encarnados, ocorre o desligamento do desencarnado, termina
a convulsão e Pedro entra em sono profundo.

O mentor Aulus o classifica
como médium, mas desaconselha a procura de desenvolvimento mediúnico, até que
Pedro desenvolva recursos pessoais no próprio reajuste, com o estudo e reforma
íntima, e explica: “Com a terapia desobsessiva exitosa, será possível terminar
com os ataques de “possessão”, mas Pedro sofrerá os reflexos do desequilíbrio em
que se envolveu, a se expressarem nos fenômenos mais leves da epilepsia
secundária que emergirão por algum tempo, ante recordações mais fortes da luta
atual até o reajuste integral do perispírito (reflexo
condicionado)”.

Esse caso mostra que, apesar de tratar-se de obsessão,
não ocorreu a manifestação do obsessor (estado crepuscular) após a convulsão,
provavelmente devido ao passe aplicado durante a convulsão, que produziu o
desligamento do espírito desencarnado. Fato semelhante ocorreu no caso retirado
do Evangelho, onde no texto de Marcos (9: 14-30) observa-se que o jovem
apresenta a convulsão e após a interferência de Jesus ele fica “como morto”.
Outro ensinamento desse caso é quanto ao prognóstico de cura após o tratamento
desobsessivo, analisado pelo mentor Aulus, surgindo a epilepsia secundária a
reflexo condicionado.

CONCLUSÃO

Os
quadros de epilepsia podem ser provocados por obsessão, mas existem casos sem
ação de desencarnados e casos mistos.

Independentemente do caso, com ou
sem envolvimento obsessivo, há necessidade de uso de medicação da medicina
acadêmica.

Segundo Bezerra de Menezes, a presença do estado crepuscular é
diagnóstico de ação obsessiva.

A terapia desobsessiva é altamente eficaz,
devendo ser usada como preconiza a obra kardequiana.


Com
a terapia desobsessiva exitosa, será possível terminar com os ataques de
“possessão”, mas a pessoa sofrerá os reflexos do desequilíbrio em que se
envolveu

O
estudo dos casos clínicos sugere que a maioria dos quadros de epilepsia
representa processo obsessivo atual ou passado, e que todo paciente epiléptico
deve ser abordado com processo terapêutico nesse sentido. As exceções seriam os
casos de lesão cerebral no passado ou na vida atual, como nos casos de
suicídio.

O quadro secundário a processo obsessivo, se não socorrido em
tempo hábil, pode levar à lesão física.

Existe uma seqüência evolutiva do
processo de cura: obsessão com lesão física -> obsessão sem lesão física
-> epilepsia por reflexo condicionado -> estado convalesceste (com crises
dependendo do comportamento do paciente) -> cura.

“Estai de
sobreaviso, vigiai e orai, porquanto, não sabeis quando será o tempo.” Jesus –
Mc. 13 – 33.

Fonte: Revista Cristã de Espiritismo (edição
23)

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