Doutrina de Responsabilidade.

Doutrina de Responsabilidade

Disse Allan Kardec, em Obras Póstumas, que ?o Espiritismo é, sem contradita, o mais poderoso elemento de moralização…? Pode parecer, à primeira vista, que este conceito seja uma espécie de lugar-comum, porque ordinariamente, as religiões e doutrinas dizem a mesma coisa. Não há religião, não há doutrina espiritualista que não esteja compenetrada de sua influência moralizadora.

Realmente, toda religião ensina o bem e prescreve regras morais indiscutivelmente necessárias e benéficas. Quando, porém, se diz, com Allan Kardec, que ?o Espiritismo é o mais poderoso elemento de moralização?, não se repete, como parece, um conceito comum: afirma-se um princípio que tem o seu fundamento na observação dos fatos, nas provas históricas e, finalmente, nas deduções filosóficas.

Por que, neste caso, se afirma que o Espiritismo é uma doutrina essencialmente moralizadora? Será apenas porque a Doutrina prescreve regras de procedimento na vida particular e na vida social? Será simplesmente porque a idéia da vida futura impõe certo respeito a uma entidade extraterrena, a um poder superior?

Embora tais elementos sejam apreciáveis e não deixem de ter, até certo ponto, alguma influência no comportamento humano, os fundamentos do Espiritismo, como doutrina moralizadora, no dizer de Kardec, são mais sólidos. Mais sólidos e mais profundos, porque a Doutrina Espírita começa por não impor a crença na vida futura, mas demonstrar experimentalmente a existência do princípio imortal, que é o espírito. Da certeza dos fatos, vem a compreensão da vida futura. Mas poderão dizer que os fatos, por si mesmos, não podem ainda exercer a influência que se atribui ao Espiritismo.

Não são, realmente, os fatos em si que formam a base moral da Doutrina, porque há muita gente que acredita nos espíritos, que tem mediunidade, que faz sessões mediúnicas e, no entanto, não tem vida recomendável.

Convém notar, porém, que os fenômenos de além-túmulo, fenômenos que constituem a matéria-prima do Espiritismo e, ainda, de algumas escolas espiritualistas não espíritas podem ser encarados com objetivos muito diferentes.

Há, por exemplo, os que procuram as sessões com espírito de curiosidade, sem qualquer objetivo elevado. Pode acontecer, e tem acontecido, que certas pessoas, a princípio simplesmente curiosas, passem, depois, a compreender bem o fenômeno e se tornem espíritas integrais, segundo a conceituação de Allan Kardec. Há, de outro lado, os que, diante do fenômeno, cogitam apenas de resolver certos problemas íntimos ou de pôr a limpo certas dúvidas. Ao lado destes, há também os que chegam até a fazer comércio do fenômeno mediúnico; e há, finalmente, os que consideram o fenômeno de além-túmulo um meio de aperfeiçoamento moral. Estes, sim, sabem respeitar o fenômeno, não como um tabu, não como objeto devocional, mas, na realidade, como campo de estudo para a iluminação do espírito e como elemento de convicção para a crença em Deus.

A Doutrina é moralizadora justamente porque, à proporção que os seus adeptos vão estudando e compreendendo os fatos, vão formando, naturalmente, maior e mais sólida consciência de responsabilidade.

O Espiritismo não veio apenas para aliviar, consolar, como se diz constantemente: ele alivia e consola, não há dúvida, mas desperta, antes de tudo, o sentimento de responsabilidade. Jesus consolou os aflitos, mas nem por isso o Mestre deixou de chamar à responsabilidade todos aqueles que tinham os seus problemas, os seus casos de consciência e necessitavam de esclarecimento e conforto espiritual.

Quando Jesus disse ?vai e não peques mais? naturalmente fez sentir que a ?pecadora?, segundo a palavra do Evangelho, devia esforçar-se para não reincidir na falta, não cair outra vez. Que é isto? É chamar à responsabilidade.

Se realmente o Espiritismo é o Consolador prometido, é o Cristianismo restaurado em espírito e verdade, há de ser uma doutrina profundamente moralizadora, não porque imponha dogmas ou porque insinue o medo de Deus. Não. É porque o Espiritismo convence, tem argumentos capazes de provar a sobrevivência da alma e, como consequência disto, prova também que não há efeito sem causa.
Se, portanto, nas relações humanas como nas relações espirituais, não há efeito sem causa, é claro que cada um responde, cedo ou tarde, pelo mal que houver feito.
O CAMINHO ? Se assim é, para o espírita não há outro caminho senão o bem, a honestidade, a retidão de consciência, porque o espírita é o primeiro a saber que, pelo processo das vidas sucessivas ou reencarnação, todas as suas mazelas, assim como as suas boas obras participam de seu acervo espiritual, não ficam sepultadas no túmulo.
As pessoas que dizem que o Espiritismo é um perigo, naturalmente por ignorância ou má-fé, confundem o espírita com qualquer indivíduo que pratica o mediunismo por interesse material ou com qualquer fanático, que vive a fazer dos espíritos uma espécie de oráculo para consultas miraculosas. Quem, desapaixonadamente, se dispuser a ler a codificação de Allan Kardec, terá de reconhecer, com honestidade e bom senso, que o Espiritismo é uma doutrina moralizadora por natureza e, como tal, uma doutrina benéfica à sociedade, uma doutrina que não impõe os seus postulados a ninguém, mas tem o direito de ser respeitada.

Deolindo Amorim

(Retirado da Revista Estudos Espíritas ? Julho de 1999 ? Edições Léon Denis)

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Sobre aricarrasco

sou simples mas co objetivos e convicções definidos.
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