Donos do Espiritismo

"DONOS" do Espiritismo *

A ambição do poder asfixia o espírito democrático

Marcelo Henrique Pereira (*)

 

 

"O Espiritismo não é e nem pode fazer-se religião institucionalizada e muito menos oficializada em parte alguma, porque os seus princípios são contrários à toda sistemática fingida e fechada. O que importa ao Espiritismo, como Kardec acentuou desde o início, não é a forma, mas a substância. Toda tentativa de institucionalização exige hierarquia, que implica autoridade e ação autoritária. O fundamento ético do Espiritismo é a liberdade, sem a qual não há atividade criadora nem responsabilidade individual. Por isso, só a associação livre convém ao Espiritismo, que perde com isso em representação social, mas ganha em compensação no tocante à responsabilidade individual.

Em suas relações com as instituições sociais e políticas da atualidade o Espiritismo encontra muitas dificuldades, mas a liberdade tem o seu preço.


Por toda parte, em nosso mundo, pululam os mestres pretensiosos e os tiranetes vaidosos, prontos a servir-se de títulos e cargos oficiais para esmagar a liberdade. Muitos espíritas não compreendem esse problema e tentam sujeitar o movimento espírita a cúpulas pretensiosas. Tratando desse tipo de institucionalização, fatalmente dogmática, Kardec recomendou a multiplicidade dos Centros Espíritas pequenos, unidos por laços de fraternidade. Emmanuel, através de mediunidade de Francisco Cândido Xavier, declarou, em mensagem orientadora: "A Religião organizada é o cadáver da Religião". Isso porque a organização religiosa está sempre sujeita à dominação de fanáticos e ambiciosos. A ambição do poder asfixia o espírito democrático."

José Herculano Pires ("Curso Dinâmico de Espiritismo: O grande desconhecido", São Paulo: Paidéia, 1982, p. 58-59).

 

As advertências expressivas do professor Herculano são de uma atualidade indiscutível. O momento que atravessamos merece acurada reflexão, constante vigilância e severas advertências para os dirigentes e formadores de opinião espíritas.

Há, prima facie, um comportamento reprovável dos "defensores" do Espiritismo, que se auto-intitulam guardiões da "pureza doutrinária" e dos próprios postulados espíritas, manifestando-se com freqüência sobre a existência de movimentos ou ações que tentam "dividir" os espíritas, ou alterar o conteúdo da Doutrina Espírita, para quem o Espiritismo teria um tríplice aspecto: religião, ciência e filosofia.

Propositadamente colocamos as "vertentes" nesta ordem, porque é isto que acontece na realidade espírita brasileira: primeiro, a pregação e postura religiosa; segundo, a fenomenologia, abandonando, infelizmente, os padrões e critérios científicos estruturados pelo eminente Professor Rivail; e, por último, se sobrar alguns minutos do dia e com mínimo interesse, o estudo de sua filosofia, isto é, a construção ideológica e principiológica do próprio Espiritismo, relegada ao último plano, porque "dá trabalho" e exige tempo e dedicação constantes.

As últimas cruzadas contra a filosofia têm sido repetidamente cunhadas por "pensadores" que advertem os freqüentadores dos centros sobre um "tal movimento" que quer elitizar a doutrina, formado por eruditos (?) pensadores que ostentam qualificações acadêmicas ou adjetivações profissionais. Ainda há pouco chegaram a dizer que não há lugar, no Espiritismo, para os "professores" e "doutores", já que os títulos são "mundanos" e não devem ser "ostentados" em eventos, periódicos ou atividades espiritistas.

Logo ao lado, há outros que querem dizer quem é ou quem não é espírita, mandando estes últimos, inclusive, a se afastarem do movimento, criarem "seitas" ou outras "doutrinas", só porque estes querem rediscutir o trabalho de Kardec, não aceitam mistificações, invencionices e endeusamentos, apresentando propostas que perpassam, inclusive, a permanência e a continuidade do Espiritismo em nosso mundo, já que a obsolescência (pela fragilidade, impermanência e desatualização) de alguns conceitos contidos nas obras de Kardec.

Voltando às judiciosas observações de Herculano, no que concerne ao "fingimento" e ao hermetismo das instituições, verificamos que há, de modo sistemático, uma indução à "reforma íntima" como "necessidade" dos seres (e dos Espíritas, em especial), prescrevendo-se "fórmulas" ou caminhos para atingimento deste objetivo "espiritual". Na prática, as pessoas acabam "aparentando mais do que são", isto é, assumem um comportamento humilíssimo que tem sido conceituado por alguns preclaros, atentos e preocupados mentores como "santidade de adorno". Esta santidade – aparente, irreal e pouco produtiva – coloca os seres em pretensa "superioridade" espiritual, estimando que, de futuro, terão os seus signatários condições "confortáveis" de adiantamento espiritual, em face dos serviços, atividades e comportamentos ocorridos em sua atual existência. São mansos, até pacíficos, a princípio. São cordiais, exalando bons modos. São fraternos, sorridentes e parecem estar preocupados com os circunstantes. Fazem o bem – pelo menos, aparentemente, ou seja, para serem vistos. Mas, no fundo… São criaturas orgulhosas e vaidosas, e ficam à espreita do primeiro "vacilo" para atacar ferozmente, com prescrições e críticas, assumindo, até, a forma de censores ou falsos moralistas.

Mesmo não concordando com a (infeliz) expressão "reforma íntima", devemos entender que o processo de transformação e evolução espiritual de cada indivíduo é questão de sua própria e exclusiva responsabilidade, não sendo adequado qualquer comportamento de julgamento das atitudes, tampouco prescrição de "como" ou "o que" fazer, como assaz se verifica em muitas instituições espíritas. Mesmo que de modo geral, em conversações ou explanações doutrinárias, é comum vermos indivíduos ditando regras ou indicando atitudes aos outros, situação que, aos olhos da filosofia espírita, é totalmente descabida, porque devemos vigiar a nós mesmos, não aos outros.
 

(*) Marcelo Henrique Pereira, Mestre em Ciência Jurídica, Presidente da Associação de Divulgadores do Espiritismo de Santa Catarina e Delegado da Confederação Espírita Pan-Americana para a Grande Florianópolis (SC)

 

Este artigo pode ser encontrado, também, neste endereço eletrônico:

www.jornaldosespiritos.com

http://www.jornaldosespiritos.com/2007.3/col20.3.htm

 

 

Publicado nesta HP A ERA DO ESPÍRITO, com a autorização do autor.

 

 
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Sobre aricarrasco

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