UM ENSAIO SOBRE MATÉRIA E ENERGIA

UM
ENSAIO SOBRE MATÉRIA E ENERGIA

Alexandre
Fontes da Fonseca

Volta
Redonda, RJ

http://www.aeradoespirito.net/ArtigosAF/UM_ENSAIO_SOBRE_MAT_E_ENER_AF.html

 

No cap.
9 da obra “E a Vida Continua”, de André Luiz, o irmão
Cláudio diz: “Qualquer aprendiz de ciência elementar, no Planeta, não
desconhece que a chamada matéria densa não é senão a energia radiante
condensada. Em última análise, chegaremos a saber que a matéria é luz
coagulada
, substância divina, que nos sugere a onipresença de Deus.”
[1] (Grifos em itálico originais). No cap. 1º. de “Evolução em Dois
Mundos
”, André Luiz diz que: “… na essência, toda a
matéria é energia tornada visível e que toda a energia, originariamente, é
força divina de que nos apropriamos para interpor os nossos propósitos aos
propósitos da Criação, …” [2].

 

É
comum, no movimento espírita, ouvirmos a idéia de que matéria pode ser
transformada em energia e vice-versa. Nós mesmos, outrora, afirmamos isso [3],
mas um estudo mais rigoroso sobre como a Física interpreta os fenômenos de
desmaterialização, de aniquilamento de pares de partículas-antipartículas, ou
reações de fissão ou fusão nucleares revelam o equívoco desta idéia. O objetivo
desta matéria, portanto, é esclarecer como a Física entende matéria, energia
e tais fenômenos de transformação. Após, discutiremos como essas idéias se
relacionam com o que ensina o Espiritismo.

 

A
palavra energia é tão antiga quanto Aristoteles, e seu conceito moderno
emergiu de estudos de Leibniz [4]. Nas palavras de um dos maiores físicos do século
passado, o conceito de energia pode ser entendido como:

“Existe
um fato, ou se desejar, uma lei que governa todos os fenômenos naturais
conhecidos até o presente. Não existe exceção a esta lei; ela é exata até onde
se sabe. Esta lei é chamada de conservação de energia; ela diz que existe uma
certa quantidade que chamaremos energia, que não se altera perante as diversas
alterações a que a natureza está sujeita. Esta é uma idéia completamente
abstrata porque ela é um princípio matemático que diz que existe uma quantidade
numérica que não se altera quando alguma coisa acontece. A energia não é uma
descrição de um mecanismo ou de algo concreto; é apenas um fato estranho que
calculamos um número, e quando terminamos de observar a natureza realizando seus
truques e calculamos o número de novo, ele é o mesmo.” Richard Feynman
[4] (tradução nossa).

A
definição mais comum de matéria é a de qualquer coisa que tenha massa
e ocupe volume de espaço
[5]. Segundo a Física Moderna, a ocupação de
espaço
por parte da matéria decorre do fato dos elétrons, que possuem uma
propriedade magnética intrínseca chamada spin de valor semi-inteiro
igual a 1/2, não poderem ocupar as mesmas regiões espaciais em torno do núcleo
de um átomo. Isso causa a sensação de repulsa entre dois objetos. Partículas
que possuem spin de valor semi-inteiro (1/2, 3/2, 5/2, etc.) são
chamadas de férmions, e os constituintes da matéria ordinária que
conhecemos, como os prótons, neutrons e elétrons, são férmions. A teoria
quântica demonstra que os férmions não podem ocupar os mesmos estados quânticos
num sistema, incluindo-se a posição no espaço, explicando, assim, a concepção
de que “dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar”.

 

Entretanto,
na natureza existe, também, outro tipo de partículas chamadas bósons.
Elas tem a propriedade de possuir spin de valor inteiro (0, 1, 2, etc.).
Ao contrário dos férmions, e por mais incrível que possa parecer, os bósons
podem ocupar o mesmo estado quântico, incluindo ocupar a mesma região do
espaço
. Por causa dessas propriedades, os bósons são considerados pela
Física como as partículas “que carregam a força”. O fóton,
por exemplo, que é um “quantum” de radiação eletromagnética, é o
bóson que “carrega” a força eletromagnética. Vários fótons de
diferentes radiações eletromagnéticas podem ocupar o mesmo espaço, a prova
disso é o fato de termos num mesmo ambiente ondas de rádio, TV, celular, etc.,
sem que uma interfira na outra. 

 

A
teoria da Física que, nos dias de hoje, estuda as propriedades de todos os
tipos de partículas é chamada Modelo Padrão[5]. Segundo o Modelo Padrão,
a matéria dita ordinária (isto é, a matéria que conhecemos) é composta
por partículas elementares, isto é, partículas que não possuem estrutura
interna e, por isso, são chamadas de elementares. Por exemplo, os prótons não
são partículas elementares pois são formados por três quarks.. Estes, por
sua vez, não seriam formados por outras partículas sendo, portanto,
elementares. Os chamados léptons, a cuja classe pertence o elétron,
também são partículas elementares. O Modelo Padrão foi desenvolvido em 1970 e
tem grande aceitação entre os físicos. Sua única limitação, atualmente, é não
descrever ainda a força de interação gravitacional devido às massas das
partículas. Acredita-se, que a descoberta do chamado bóson de Higgs possa
esclarecer esse ponto dentro do contexto desta teoria[5].

 

Segundo
o Modelo Padrão e, portanto, de acordo com o conhecimento da Física atual, a
matéria ordinária é tudo que é formado de férmions elementares, isto é,
de quarks e léptons que possuem spin de valor
semi-inteiro. Como os elétrons são léptons e os prótons e neutrons são formados
por quarks, todos os átomos conhecidos que formam a matéria que conhecemos são
formados de quarks e léptons, e portanto, de férmions.

 

Mas, e os
fótons e outros bósons que a Física de Partículas já descobriu? Não seriam
matéria? O que seriam? O Modelo Padrão simplesmente não as chama de matéria,
mas apenas de bósons. São, de fato, partículas reais, que fazem parte da
natureza física que conhecemos, mas apenas não são consideradas matéria
ordinária. Poder-se-ia inventar um nome para elas, mas comumente os físicos as
chamam de “partículas mediadoras”, pois elas são responsáveis por
carregar e transmitir a mensagem da força entre os férmions. Dentro do sentido
que empregamos a palavra matéria no Espiritismo, os bósons podem ser
considerados como “matéria”, porém com propriedades distintas dos
objetos materiais que conhecemos.

 

Cabe
aqui uma questão oportuna. O que seria a chamada antimatéria ? Antimatéria
é matéria formada por antipartículas dos férmions. O que são
“antipartículas”? Antipartículas são as mesmas partículas com uma
única diferença: possuem carga elétrica de sinal inverso ao da respectiva
partícula. Por exemplo, um antielétron, também chamado de pósitron, é um
elétron com carga elétrica positiva. Um antipróton é um próton negativo.
Portanto, em essência, antimatéria é o mesmo que matéria, isto é, tem todas as
mesmas propriedades da matéria, pode formar corpos idênticos aos que conhecemos
e estão sujeitos às mesmas leis da matéria. Sabe-se que quando uma partícula e
uma antipartícula se tornam muito próximas, elas sofrem uma reação chamada de aniquilação.
Nesta reação, as partículas são ditas desmaterializadas e dois fótons são
produzidos. A reação inversa também é possível. Antigamente se acreditava que
os fluidos espirituais fossem formados de antimatéria. Com base no que foi
exposto acima, podemos perceber o equívoco dessa idéia, como já demonstrado
pelo amigo Ademir Xavier [6].

 

Outra
pergunta importante: o que é a luz? A luz não é algo real, que vemos e sentimos
de diversas formas? A luz é, de fato, algo real. Ela é radiação eletromagnética
de determinada frequência. A radiação eletromagnética, por sua vez, é uma
oscilação sincronizada dos campos elétrico e magnético que se propagam no
vácuo, isto é, no espaço vazio. A luz, como todo sistema físico, possui
comportamento regido pela conhecida dualidade onda-partícula da Mecânica
Quântica que diz que dependendo da forma como observamos ou preparamos um
experimento com a luz, o comportamento do sistema será do tipo ondulatório ou
do tipo corpuscular. O fóton, que como dissemos é a menor unidade de radiação
eletromagnética, é observado em fenômenos onde o aspecto corpuscular da luz
ocorre. E é isso o que a Física diz, que a luz é uma radiação eletromagnética
que em determinadas condições, se comporta como se fosse formada por um feixe
de partículas chamadas de fótons. A Física não chama a luz ou os fótons de
matéria pois a luz não ocupa espaço nem possue massa. Além disso, os fótons são
bósons e a matéria ordinária é considerada pela Física como sendo formada de
férmions. Dentro da consideração que fizemos anteriormente do conceito de
matéria no Espiritismo, a luz pode ser também considerada como
“matéria”.

 

Como se
isso não bastasse, a Ciência descobriu a existência de outros tipos de matéria
que não são formadas nem por férmions nem por bósons. As chamadas matéria e
energia escuras são exemplos de matéria cujas propriedades escapam ao
que expomos até aqui. Antes, porém, que nos sintamos tentados a associar essas matérias
diferentes
ao conceito de fluido universal (FU) ou fluidos espirituais, é
preciso lembrar que as propriedades de ambas ainda não satisfazem àquilo que se
espera do FU, conforme estudos já publicados na revista FidelidadESPÍRITA
[7]. De modo análogo, independente do que a Física venha a descobrir como sendo
a constituição íntima dessas matérias diferentes, dentro do conceito de
matéria do Espiritismo, elas podem ser consideradas como “matéria”.

 

Antes
de analisarmos a questão sobre a possibilidade de podermos transformar matéria
em energia, vamos ver o que a Física entende por massa. Massa é
normalmente entendida como sendo a medida da inércia, isto é, da dificuldade de
alterar-se a dinâmica de um objeto. Einstein, com sua famosa equação, E=mc2,
demonstra a relação entre a energia E e a massa m de um objeto,
onde c é a velocidade da luz. Porém, de que energia e de que massa
a teoria de Einstein está falando? Entender isso é extremamente importante para
descobrirmos se energia pode se transformar em matéria e, posteriormente,
analisarmos se podemos chamar os fluidos espirituais de energias. Os
artigos das referências 8 e 9 apresentam uma discussão história muito rica
sobre o assunto. Vamos aqui apresentar apenas as conclusões desse estudo.

 

Einstein
demonstrou que se um corpo de massa m perder ou ganhar energia no valor E,
a sua massa total diminui ou aumenta na proporção m=E/c2.
Daí a equação E=mc2. Assim, Einstein mostra que existe
uma correlação direta entre a energia, dita de repouso de um corpo e a
medida de sua inércia, de sua massa de repouso. Notem que usamos o
adjetivo “repouso”, pois existe uma confusão entre os físicos a
respeito da possibilidade da massa de um corpo poder aumentar em função da sua
velocidade. O prof. Valadares mostra [8,9] que essa é uma interpretação errada
da Teoria da Relatividade de Einstein e que, na verdade, não importa quão veloz
é uma partícula, sua massa é sempre a mesma. Por exemplo, um próton se
deslocando a velocidades muito altas, próximas da velocidade da luz, terá massa
idêntica a de um próton em repouso. Einstein demonstrou que no processo de
conservação da energia total de um sistema, cada partícula possui uma energia intrínseca
chamada “energia de repouso”, dada pela equação E=mc2.
Uma consequência dessa teoria é que a massa de um corpo não é
necessariamente igual à soma das massas das partículas que o compõem
(grifamos
para enfatizar). Em um dado processo, o que se conservam, segundo a Física, é o
chamado momento (ou quantidade de movimento) e a energia total do
sistema. A massa total só se conserva se a definimos de modo diferente do
usual, o que deixamos para o leitor mais interessado verificar nos artigos das
referências 8 e 9.

 

Diante
do que foi exposto acima, pode energia se transformar em matéria, ou
vice-versa? Para responder isso, considere como exemplo uma reação de
desmaterialização ou aniquilamento ocorrida com um sistema formado por um
elétron e um pósitron, isolados do resto do universo, como sugere o prof.
Valadares [8]. Nesse processo, o momento e a energia total se conservam. Em
outras palavras, antes da desmaterialização, o par elétron-pósitron possui determinado
valor para a energia, momento e massa totais. Após a desmaterialização, dois
fótons são produzidos e a energia, momento e massa totais permanecem com o
mesmo valor, cada. Que a energia e o momento se conservam, isso entendemos
perfeitamente. Mas como a massa total se conserva, se o elétron e o pósitron
foram destruídos e no lugar dois fótons, que possuem massa de repouso nula,
surgiram? É aí que precisamos prestar maior atenção para entender como a Física
interpreta o fenômeno de reação de desmaterialização e verificar se houve ou
não transformação de matéria em energia.

 

O
argumento chave para entender o que acontece é: “se a energia total se
conservou, isto é, se ela permaneceu a mesma, então nem se ganhou nem se perdeu
energia”. Portanto, se tivesse ocorrido a transformação de matéria em
energia, teríamos um aumento na energia total do sistema isolado. Como isso não
ocorre no fenômeno de desmaterialização, não houve conversão nem de matéria,
nem de coisa alguma
em energia!
Apesar
de sutil, é um erro
dizer que matéria pode ser transformada em energia, e vice-versa. O que de fato
houve foi uma transformação de duas partículas, o elétron e o pósitron, em
outro tipo de partícula: fótons. Em outras palavras, objetos reais e concretos
como o elétron e o pósitron, de acordo com a Física, só podem se transformar em
outros objetos reais e concretos, como os fótons. Objetos reais não podem se
transformar em entes abstratos como a energia. Como lemos na explicação de
Feynman, energia é um conceito puramente abstrato. Energia, por sua vez, pode
ser transformada em outros tipos de energia ou transferida de um sistema físico
a outro, mas energia não pode ser transformada em matéria. Nesse cálculo desse
“número” a que chamamos energia, a fórmula E=mc2
precisa ser levado em conta para que a lei de conservação da energia seja
verificada no fenômeno de aniquilamento de par de partícula-antipartícula.

 

O mesmo
raciocínio é válido com relação à massa, porém com a observação de que a soma
das massas de um sistema não necessita ser igual à massa total do sistema, como
mencionado anteriormente. Esse é o caso dos fótons que são criados na reação de
desmaterialização. Cada fóton, separadamente, possui massa de repouso nula, mas
o sistema formado por dois fótons possui massa total igual à massa de dois
elétrons. A explicação formal para isso se encontra nos artigos das referências
8 e 9 e não extenderemos aqui por razões de espaço.

 

Retornemos
às frases contidas nas duas obras de André Luiz citadas no primeiro parágrafo deste
artigo, numerando-as: 1) “matéria densa não é senão a energia radiante
condensada”, 2) “matéria é luz coagulada”; e 3)
“na essência, toda a matéria é energia tornada visível”.. Essas
frases tem relação com os conceitos de matéria, massa e energia de repouso de
uma partícula, bem como com a interpretação de processos de aniquilamento ou
desmaterialização.

 

Sendo
rigorosos com relação à Física, nenhuma das três frases acima está
rigorosamente correta. As frases 1) e 3) estão em conflito com o que a Física,
hoje, diz pelas razões explicadas nos parágrafos anteriores. A frase 2) parece
correta em vista do fenômeno de aniquilamento de um par
partícula-antipartícula, onde partículas com massa de repouso não nula se
transformam em fótons, que são quanta de luz. Apesar da frase 2) ser a que
melhor se aproxima do entendimento atual dos físicos, não é correto deduzir que
a “matéria é luz coagulada”. O fato da matéria poder se transformar
em fótons não significa que as partículas sejam fótons “coagulados”
ou “condensados” antes do fenômeno de transformação. A matéria, de
acordo com o Modelo Padrão da Física de Partículas, é todo sistema físico
formado por partículas elementares. Essas partículas são elementares porque não
possuem estrutura interna, o que equivale a dizer que elas não são internamente
fótons, “luz coagulada”, ou qualquer outra coisa. Elas já são os
tijolos básicos da matéria. Elas possuem características individuais próprias
como massa, carga elétrica, energia de repouso e outras propriedades físicas
fixas. No caso da relação entre massa e energia (que é a que sugere que matéria
pode ser transformada em energia, e vice-versa), o que podemos dizer, nas
palavras do próprio Einstein, é que “A massa de um corpo é uma medida do
seu conteúdo energético”[8]. Uma partícula, então, contém energia na
medida proporcional à sua quantidade de massa, mas ela, a partícula, em si não
é energia.

           

Por
outro lado, em vista da sutileza da interpretação atual da Física dos conceitos
de matéria, massa, energia e dos fenômenos como o de aniquilamento, e sabendo
que na época em que as frases 1), 2) e 3) foram publicadas pela primeira vez,
os físicos não tinham a compreensão de agora (o Modelo Padrão foi desenvolvido
em 1970, enquanto as obras de André Luiz foram escritas e primeiramente
publicadas nas décadas de 40 e 50), precisamos reconhecer que essas frases
estavam corretas no contexto do conhecimento científico da época, exprimindo a
idéia do fenômeno de desmaterialização ou de aniquilamento de um par partícula-antipartícula,
mas acima de tudo enfatizando que a Ciência já reconhecia que a matéria não é
algo rígido, duro e perpétuo como nossos cinco sentidos poderiam sugerir. Se a
forma dessas frases não está correta perante o que ensina a Física de hoje, a
mensagem que seus autores pretenderam transmitir de que a matéria não é algo
absolutamente rígido é atual e confirmada por essa mesma ciência. Além disso, é
preciso ter em mente, como aliás nos lembra André Luiz no prefácio da obra Mecanismos
da Mediunidade
[10], que a Ciência do futuro substituirá a atual, e que
é cedo para considerar que as teorias atuais da Física sejam a palavra final
sobre o que é a matéria.

 

Vamos,
agora, analisar o que a Doutrina Espírita ensina sobre a matéria. É oportuno
reproduzirmos a questão 22 de O Livro dos Espíritos [11]:  

22.
Define-se geralmente a matéria como aquilo que tem extensão, que pode
impressionar os nossos sentidos, que é impenetrável. Essas definições são
exatas?

“Do
vosso ponto de vista são exatas, porque não falais senão do que conheceis. Mas
a matéria existe em estados que vos são desconhecidos. Pode ser, por exemplo,
tão etérea e sutil que nenhuma impressão vos cause aos sentidos. Contudo, é
sempre matéria, embora para vós não o seja.”

Essa
resposta dos Espíritos tem um valor muito grande. Ela adianta em mais de meio
século o que a Ciência viria a descobrir sobre a natureza da matéria. De fato,
matéria existe em estados que eram desconhecidos da humanidade à época de
Kardec. Não somente a descoberta dos bósons, mas mesmo entre os férmions
existem partículas bastante sutis. Por exemplo, a partícula chamada neutrino,
que é um lépton elementar, é tão leve que se acreditava não possuir massa, e é
tão sutil que trilhões deles são capazes de atravessar o planeta Terra inteiro
como se não existisse nada. Trilhões de neutrinos atravessam nosso corpo sem
causar a menor sensação. Embora não percebamos a sua existência, concordamos
com os Espíritos: o neutrino é sempre matéria.

 

Na
questão 29, os Espíritos dizem que a ponderabilidade é um atributo da matéria
que conhecemos, mas “não da matéria considerada como fluido
universal”. Eles dizem também que “A matéria etérea e sutil que
forma esse fluido é imponderável para vós, mas nem por isso deixa de ser o princípio
da vossa matéria pesada”. Neste momento, o Espiritismo apresenta uma
informação que é nova para a Ciência. Os Espíritos afirmam que o FU é o
princípio elementar da matéria que conhecemos. Essa afirmativa contradiz o
Modelo Padrão que diz que as partículas elementares não são formadas de outra
coisa. Isso nos sugere algumas questões. Seriam as partículas elementares o FU?
Ou estaria a Física comprovando erros no Espiritismo? Em nosso ponto de vista,
não podemos responder a essas questões pois as teorias da Física, como o Modelo
Padrão, possuem limitações e sofrerão novos desenvolvimentos que podem culminar
com novas teorias. Um exemplo é a busca experimental por uma partícula que
seria a causa da massa de todas as outras, o bóson de Higgs. Além disso, outras
teorias como a de supercordas propõem que cada partícula elementar é um tipo de
corda que oscila
em
determinada frequência. Não

é um procedimento científico a simples comparação entre o Modelo Padrão e o
Espiritismo, para então concluir que as partículas elementares são o FU. Seria
preciso trabalhar na demonstração de que tudo o que o Espiritismo diz do FU é
satisfeito pelas partículas elementares. Por exemplo, dizem os Espíritos
(questão 27) que sem o FU, a matéria estaria num perpétuo estado de divisão.
Como encaixar isso com as teorias da Física de Partícula? Apenas um trabalho de
pesquisa rigoroso pode vir a responder isso.

 

Por
outro lado, a tese espírita do FU ser o princípio elementar de toda a matéria
não é desmentida pelos fenômenos de transformação da matéria como o de
aniquilamento de pares partícula-antipartícula. O fato de um tipo de matéria
poder se transformar em outro sugere a existência de uma matéria prima
universal que seja a base de toda a matéria incluindo, também, aquilo que
chamamos de matérias diferentes quais sejam os bósons, a matéria e
energia escuras. Somente estudos mais profundos feitos com o rigor científico
poderão fornecer maiores certezas, como já comentado em artigo anterior na FidelidadESPÍRITA
[12].

 

Seria
correto falar que os fluidos espirituais são energias? É correto dizer que no
passe recebemos “energias espirituais”? Por tudo o que vimos até
aqui, se o FU é a base tanto dos fluidos espirituais quanto da matéria, então o
FU deve ser identificado com a matéria e não com energia. Logo, não se pode
dizer que os fluidos são energia. Teriam os fluidos energia, assim como matéria
carrega energia? Acreditamos que sim, e que nos processos e fenômenos
envolvendo fluidos espirituais, leis análogas às de conservação de energia
devem existir e reger tais processos. Assim como Einstein demonstrou uma
relação entre a propriedade massa e energia de repouso de um objeto,
talvez exista uma relação análoga entre alguma propriedade física dos fluidos espirituais
(algo relativo à sua massa) e a energia intrínseca dos mesmos. Mas não podemos
ir além disso. Devemos aguardar que os pesquisadores da Física e do Espiritismo
trabalhem para nos trazer respostas. Não é um procedimento científico chamar os
fluidos de energia sem pesquisarmos profundamente o que são os fluidos, como
quantificar a energia contida neles, e como quantificar os fenômenos fluídicos.

 

Para
finalizar, observemos que os Espíritos dizem na questão 22a que a
“matéria é o laço que prende o espírito; é o instrumento de que este se
serve e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce sua ação.” Essa definição de
matéria é muito importante por duas razões. Primeiro porque afirma a interação
entre o espírito e a matéria. Segundo, porque apresenta uma razão filosófica da
existência da matéria: o de servir de instrumento de evolução espiritual para o
espírito.

 

Referências

[1] Francisco Cândido Xavier,
E a Vida Continua…
, pelo Espírito de André Luiz, FEB, 18ª edição,
Rio de Janeiro, 1991.

[2]
Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, Evolução em Dois Mundos,
pelo Espírito de André Luiz, FEB, 11ª edição, Rio de Janeiro, 1989.

[3]
Curso Ciência & Espiritismo, “Aula 7: Física e Espiritismo II:
energia e matéria. Referências científicas na pesquisa espírita”, Boletim
do GEAE
Número 489, (2005).

[4] http://en.wikipedia.org/wiki/Energy

[5] M.
A. Moreira, “O Modelo Padrão da Física de Partículas”, Revista
Brasileira de Ensino de Física
31, 1306 (2009).

[6] Ademir
L. Xavier Jr., “
Algumas
Considerações Oportunas sobre a Relação Espiritismo – Ciência
”,
Reformador, Agosto, p.244 (1995).

[7] A.
F. Da Fonseca, “Matéria e Energia Escura: não são o Fluido
Universal”, Revista FidelidadESPÍRITA Dezembro, p. 18,
(2003).

[8] J.
A. Valadares, “O Conceito de Massa. I. Introdução Histórica”, 
Revista Brasileira de Ensino de Física 15, 110 (1993).

[9] J.
A. Valadares, “O Conceito de Massa. II. Análise do Conceito”, 
Revista Brasileira de Ensino de Física 15, 118 (1993).

[10]
Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, Mecanismos da Mediunidade,
pelo Espírito de André Luiz, FEB, 11ª edição, Rio de Janeiro, 1990.

[11] A.
Kardec, O Livro dos Espíritos, FEB, 1ª edição Comemorativa do
Sesquicentenário, Rio de Janeiro, 2006.

[12] A.
F. Da Fonseca, “O Fluido Universal e as teorias cosmológicas”, Revista
FidelidadESPÍRITA
Novembro, p. 16, (2003).

[13] Os
artigos das referências 5, 7 e 8 podem ser baixados gratuitamente a partir do
sítio da revista:
www.sbfisica.org.br/rbef

 

Este artigo foi publicado em duas partes na revista FidelidadESPÍRITA
91 (Abril), p. 6 (2010); e 92 (Maio), p. 20 (2010).

 

* * *

 

 

 

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