O MÉTODO CIENTIFICO e UM POUCO MAIS SOBRE CIÊNCIA

Curso
Ciência & Espiritismo

O Método Científico e um pouco mais sobre Ciência
Alexandre
Fontes da Fonseca

Brasil
http://www.aeradoespirito.net/Curso_Cien_Esp/CURSO_CIEN_ESPIR_AULA_2_AF.html

 

 

1. MÉTODO CIENTÍFICO
 

Todas
as atividades na vida requerem métodos para a sua execução. Desde o simples ato
de respirar aos mais complexos mecanismos de produção em uma indústria,
utilizam métodos de execução. Como não poderia deixar de ser, a prática científica
requer a definição de métodos específicos tanto para o estudo básico de uma
disciplina científica (métodos pedagógicos) quanto para o desenvolvimento,
propriamente dito, do conhecimento científico. É sobre este último tipo de
método que vamos discutir nesta aula.

 

A
expressão “método científico” se refere, portanto, ao conjunto de orientações e
passos pelos quais uma pesquisa científica deve passar para que seus resultados
sejam válidos. O método científico envolve o uso de ferramentas especiais que,
muitas vezes, só servem para as pesquisas em uma única disciplina científica ou
em uma única área específica dentro dela. Essas ferramentas que compõem o
método científico de cada ciência são definidas pelo paradigma ou núcleo
teórico central (ver aula anterior) da mesma. Por exemplo, em Física, os
desenvolvimentos teóricos devem seguir com muita fidelidade as propriedades e
leis matemáticas. Em Biologia, eles devem seguir os conceitos e funções
biológicas já estudados anteriormente. As experiências devem ser criadas e
preparadas de modo a garantir que os efeitos observados só dependam das causas
mais relevantes que estão sendo estudadas. Enfatizamos que são os paradigmas
que determinarão as causas mais relevantes para cada fenômeno. Desta forma, percebemos
que não existe uma receita de bolo para o método científico. Não existe
um único método que seja válido e aplicável a todo e qualquer fenômeno
ou todo e qualquer problema teórico de qualquer ciência. Mas o que é comum a
todos os casos é a necessidade de seguir-se um método que garanta,
qualifique e/ou quantifique a validade do resultado do trabalho de pesquisa
.
Atribui-se ao método científico a função de fornecer o nível de exatidão ou de
imprecisão (dependendo do caso) dos resultados das pesquisas. É essa informação
que torna o resultado da pesquisa válido, aplicável ou útil dentro
de determinados limites (também em acordo com o paradigma da ciência).

 

A
diferença entre a mera especulação intelectual e um resultado verdadeiramente
científico é que o segundo foi obtido aplicando-se um método científico na sua
análise e desenvolvimento. Como dito na aula anterior, a criatividade gera
idéias que são, então, especulações intelectuais. Quando se usam as ferramentas
do método científico da respectiva área do conhecimento para estudar e
desenvolver essas especulações, os resultados da pesquisa se tornam
científicos. O que não pode acontecer é considerar idéias iniciais como
verdades científicas mesmo que elas se refiram a temas científicos.
 

Allan
Kardec definiu um método que claramente merece o adjetivo científico,
para análise das mensagens provindas do plano superior. Elas visam garantir
que o conteúdo das mesmas tenha validade e utilidade. Primeiramente, devemos
aplicar o bom senso para ver se o conteúdo fere princípios básicos
conhecidos sobre a moral, os costumes, a ciência e a natureza. Em seguida, nos
casos onde o conteúdo não pode ser avaliado por nossos conhecimentos, deve-se
aplicar o consenso universal dos espíritos que diz que “Uma só garantia
séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as
revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de
médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares
.” (Ítem II da
Introdução do Evangelho Segundo o Espiritismo [
1]. Fonte em itálico original).
Toda a codificação espírita teve base na aplicação destes dois métodos.

 

Já dissemos
que uma função do método científico é atribuir valores aos resultados. Existe
um consenso de que toda teoria deve ser verificada através dos fatos, mesmo que
essa verificação se dê em acordo com os princípios do núcleo teórico central ou
paradigma da disciplina científica. Nesse aspecto, Kardec foi claro (ítem VII
da Introdução de O Livro dos Espíritos [
2]): “Desde que a Ciência sai
da observação material dos fatos
, em se tratando de os apreciar e explicar,
o campo está aberto às conjeturas. Cada um arquiteta o seu sistemazinho,
disposto a sustentá-lo com fervor, para fazê-lo prevalecer. Não vemos todos os
dias as mais opostas opiniões serem alternativamente preconizadas e rejeitadas,
ora repelidas como erros absurdos, para logo depois aparecerem proclamadas como
verdades incontestáveis? Os fatos, eis o verdadeiro critério dos nossos
juízos, o argumento sem réplica
. Na ausência dos fatos, a dúvida se justifica
no homem ponderado
.”
(grifos nossos).

 

Portanto,
a verificação das teorias através dos fatos, sejam eles provocados através de
experimentos controlados ou, simplesmente, observados na natureza, faz parte
daquilo que chamamos de método científico.

 

Abaixo discutiremos alguns
outros aspectos sobre ciência e sobre como se define o método científico no
caso de uma pesquisa dita interdisciplinar, isto é, que envolve objetos
de estudo que pertencem, ao mesmo tempo, a mais de uma disciplina científica.

 

2. UM POUCO MAIS SOBRE CIÊNCIA

 

A estrutura de uma disciplina
científica, apresentada na aula passada, composta por um núcleo teórico
central, um conjunto de hipóteses auxiliares que fazem a ponte entre o núcleo
central e os fatos e um conjunto de regras negativas e positivas
que mantém o processo em desenvolvimento, constitui aquilo que Imre Lakatos
(filósofo da ciência) designou como sendo um programa científico de pesquisa
[
3]. Segundo Chibeni a exigência
fundamental de um programa científico de pesquisa é que a sua estrutura teórica
forneça previsões corretas para novos e diferentes fatos. Que diríamos de um
serviço de meteorologia que não acertasse uma de suas previsões ou se as pontes
caíssem na passagem do primeiro automóvel? No mínimo diríamos que a
Meteorologia e a Engenharia não são ciências! Ainda bem que ambas são, de fato,
nobres ciências cujo desenvolvimento tem oferecido mais conforto em nossas
vidas.

 

Uma boa teoria científica deve
possuir, portanto, as seguintes características [
3]: i) consistência – a
teoria não pode conter contradições; ii) coerência – a teoria deve
possuir princípios que se apoiam mutuamente; e iii) abrangência – a
teoria deve explicar o maior número de fenômenos possíveis dentro do conjunto
de objetos estudados pela disciplina científica. A função do método científico,
portanto, é assegurar que essas três condições são satisfeitas em qualquer
trabalho de pesquisa científico.

 

O nível de desenvolvimento
atingido pelas disciplinas científicas aliado à descoberta ou percepção de que
muitos fenômenos da natureza possuem características e propriedades
pertencentes a mais de uma disciplina, estão incentivando o desenvolvimento de
projetos de pesquisa interdisciplinares ou multidisciplinares,
isto é, que envolvem mais do que uma disciplina científica. Pesquisas sobre a
vida, sobre novos materiais e sobre questões de ordem social e econômica, por
exemplo, são exemplos de temas multidisciplinares. Nesses casos o método
científico que trará informação sobre a validade dessas pesquisas incluirá
métodos específicos de todas as disciplinas científicas envolvidas. O
aspecto coerência deve ser satisfeito. Se, por exemplo, em uma pesquisa
sobre a estrutura da molécula do DNA que envolve, ao mesmo tempo, Física, Química,
Matemática e Biologia, culminar com um resultado que contradiz os princípios
biológicos, por exemplo, esse resultado não terá valor pois estará incoerente
com o núcleo central de uma das disciplinas científicas básicas. Desta forma,
os rigores dos métodos de pesquisa de todas as disciplinas envolvidas devem ser
aplicados de modo a obter-se resultados que sejam válidos em todas as
áreas envolvidas.

 

Qualquer projeto de pesquisa
espírita, ou de interesse espírita, teórico ou prático, que envolva conceitos e
idéias provenientes de outras disciplinas científicas (como a Física que,
ultimamente, está na moda) tem, por definição do conceito de ciência, que
satisfazer aos paradigmas ou núcleos centrais de cada uma delas, incluindo os
da ciência espírita. É imprescindível aplicar-se os rigores dos métodos de
pesquisa, ou métodos científicos, de cada disciplina científica e do
Espiritismo, de forma coerente e consistente de modo a
produzir-se um resultado que tenha validade ou utilidade. Isso
distingue a mera especulação de um verdadeiro resultado científico. É
importante lembrar que o trabalho de Kardec seguiu todos esses rigores. Kardec,
diante dos fenômenos das mesas girantes, primeiro analisou o problema sob a luz
dos conhecimentos científicos de sua época, aplicando os rigores pertinentes ao
fenômeno. Somente depois de verificar que o fenômeno apresentava uma realidade
espiritual por detrás, é que Kardec mudou o rumo de suas pesquisas. Além disso,
Kardec, de forma muito sábia e científica, não propôs, com base na ciência
de sua época, teorias
para determinados tópicos espíritas como, por
exemplo, a constituição íntima da substância que compõe o perispírito. Neste
caso, é importante mencionar que Kardec não teria como verificar nenhuma
proposta desse tipo experimentalmente ou através da observaçao de fatos.. O
máximo que Kardec fez foi “emprestar” dos conhecimentos científicos de sua
época alguma terminologia ao usar, por exemplo, a palavra “fluidos” em analogia
àquilo que se acreditava existir para a eletricidade e o magnetismo.

 

Na próxima aula, começaremos a
falar sobre algumas propostas de pesquisa científica dentro, apenas, dos
paradigmas do Espiritismo ou da Ciência Espírita. Falaremos ainda sobre como os
trabalhos de pesquisa científica são analisados antes de serem divulgados para
a comunidade científica. Discutiremos um pouco mais sobre a idéia de comprovação
científica
de algum conceito ou resultado novo.

 

Referências

[1] A. Kardec, O
Evangelho Segundo o Espiritismo
, Editora FEB, 112a. Edição
(1996).
[2] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76a.
Edição, (1995).
[3] S. S. Chibeni, O Espiritismo em seu tríplice aspecto Parte II 2003, Reformador
Setembro, pp. 38-41.

Este
artigo foi publicado originalmente no

Grupo
de Estudos Avançados Espíritas –
GEAE

http://www.geae.inf.br/pt/index.html

Boletim
do GEAE

Ano 13
– Número 484 – 2004

 Boletim GEAE 4

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