Jesus e o Precursor

Jesus e o Precursor


Livro: Boa Nova – Cap. 2
Humberto de Campos & Francisco Cândido Xavier

Após
a famosa apresentação de Jesus aos doutores do Templo de Jerusalém, Maria
recebeu a visita de Isabel e de seu filho, em sua casinha pobre de Nazaré.

Depois
das saudações habituais, do desdobramento dos assuntos familiares, as duas
primas entraram a falar de ambas as crianças, cujo nascimento fora antecipado
por acontecimentos singulares e cercado de estranhas circunstâncias.

Enquanto
o patriarca José atendia às últimas necessidades diárias de sua oficina
humilde, entre- tinham-se as duas em curiosa palestra, trocando
carinhosamente as mais ternas confidências maternais.

O
que me espanta dizia Isabel com caricioso sorriso é o temperamento de João,
dado às mais fundas meditações, apesar da sua pouca idade. Não raro,
procuro-o inutilmente em casa, para encontrá-lo, quase sempre, entre as
figueiras bravas, ou caminhando ao longo das estradas adustas, como se a
pequena fronte estivesse dominada por graves pensamentos.

Essas
crianças, a meu ver respondeu-lhe Maria, intensificando o brilho suave de
seus olhos —, trazem para a Humanidade a luz divina de um caminho novo.

Meu
filho também é assim, envolvendo-me o coração numa atmosfera de incessantes
cuidados. Por vezes, vou encontrá-lo a sós, junto das águas, e, de outras, em
conversação profunda com os viajantes que demandam a Samaria ou as aldeias
mais distantes, nas adjacências do lago. Quase sempre, surpreendo-lhe a
palavra caridosa que dirige às lavadeiras, aos transeuntes, aos mendigos
sofredores… Fala de sua comunhão com Deus com uma eloquência que nunca
encontrei nas observações dos nossos doutores e, contentemente, ando a
cismar, em relação ao seu destino.

Apesar
de todos os valores da crença murmurou Isabel, convicta —, nós, as
mães, temos sempre o espírito abalado por injustificáveis receios.

Como
se se deixasse empolgar por amorosos temores, Maria continuou:

Ainda
há alguns dias, estivemos em Jerusalém, nas comemorações costumeiras, e a
facilidade de argumentação com que Jesus elucidava os problemas, que lhe eram
apresentados pelos orientadores do templo, nos deixou a todos receosos e
perplexos. Sua ciência não pode ser deste mundo: vem de Deus, que certamente
se manifesta por seus lábios amigos da pureza. Notando-lhe as respostas,
Eleazar chamou a José, em particular, e o advertiu de que o menino parece
haver nascido para a perdição de muitos poderosos em Israel.

Com
a prima a lhe escutar atentamente a palavra, Maria prosseguiu, de olhos
úmidos, após ligeira pausa:

Ciente
desse aviso, procurei Eleazar, a fim de interceder por Jesus, junto de suas
valiosas relações com as autoridades do templo. Pensei na sua infância
desprotegida e receio pelo seu futuro. Eleazar prometeu interessar-se pela
sua sorte; todavia, de regresso a Nazaré, experimentei singular multiplicação
dos meus temores.

Conversei
com José, mais detidamente, acerca do pequeno, preocupada com o seu preparo
conveniente para a vida!… Entretanto, no dia que se seguiu às nossas
íntimas confabulações, Jesus se aproximou de mim, pela manhã, e me
interpelou: “Mãe, que queres tu de mim? Acaso não tenho testemunhado a
minha comunhão com o Pai que está no Céu!

Altamente
surpreendida com a sua pergunta, respondi-lhe, hesitante: Tenho cuidado por
ti, meu filho! Reconheço que necessitas de um preparo melhor para a vida…
Mas, como se estivesse em pleno conhecimento do que se passava em meu íntimo,
ponderou ele: “Mãe, toda preparação útil e generosa no mundo é
preciosa; entretanto, eu já estou com Deus. Meu Pai, porém, deseja de nós
toda a exemplificação que seja boa e eu escolherei, desse modo, a escola
melhor.

No
mesmo dia, embora soubesse das belas promessas que os doutores do templo
fizeram na sua presença a seu respeito, Jesus aproximou-se de José e lhe
pediu, com humildade, o admitisse em seus trabalhos. Desde então, como se nos
quisesse ensinar que a melhor escola para Deus é a do lar e a do esforço
próprio concluiu a palavra materna com singeleza —, ele aperfeiçoa as
madeiras da oficina, empunha o martelo e a enxó, enchendo a casa de ânimo,
com a sua doce alegria!

Isabel
lhe escutava atenta a narrativa, e, depois de outras pequenas considerações
materiais, ambas observaram que as primeiras sombras da noite desciam na
paisagem, acinzentando o céu sem nuvens.

A
carpintaria já estava fechada e José buscava a serenidade do interior
doméstico para o repouso.

As
duas mães se entreolharam, inquietas, e perguntavam a si próprias para onde
teriam ido as duas crianças.

*
* *

Nazaré,
com a sua paisagem, das mais belas de toda a Galiléia, é talvez o mais
formoso recanto da Palestina. Suas ruas humildes e pedregosas, suas casas
pequeninas, suas lojas singulares se agrupam numa ampla concavidade em cima
das montanhas, ao norte do Esdrelon. Seus horizontes são estreitos e sem
interesse; contudo, os que subam um pouco além, até onde se localizam as
casinholas mais elevadas, encontrarão para o olhar assombrado as mais formosas
perspectivas. O céu parece alongar-se, cobrindo o conjunto maravilhoso, numa
dilatação infinita.

Maria
e Isabel avistaram seus filhos, lado a lado, sobre uma eminência banhada
pelos derradeiros raios vespertinos. De longe, afigurou-se-lhes que os cabelos
de Jesus esvoaçavam ao sopro caricioso das brisas do alto. Seu pequeno
indicador mostrava a João as paisagens que se multiplicavam a distância, como
um grande general que desse a conhecer as minudências dos seus planos a um
soldado de confiança. Ante seus olhos surgiam as montanhas de Sarnaria, o
cume de Magedo, as eminências de Gelboé, a figura esbelta do Tabor, onde,
mais tarde, ficaria inesquecível o instante da Transfiguração, o vale do rio
sagrado do Cristianismo, os cumes de Safed, o golfo de Khalfa, o elevado
cenário do Pereu, num soberbo conjunto de montes e vales, ao lado das águas
cristalinas.

Quem
poderia saber qual a conversação solitária que se travara entre ambos?

Distanciados
no tempo, devemos presumir que fosse, na Terra, a primeira combinação entre o
amor e a verdade, para a conquista do mundo. Sabemos, porém, que, na manhã
imediata, em partindo o precursor na carinhosa companhia de sua mãe,
perguntou Isabel a Jesus, com gracioso interesse: Não queres vir conosco? ao
que o pequeno carpinteiro de Nazaré respondeu, profeticamente, com inflexão
de profunda bondade: “João partirá primeiro.

Transcorridos
alguns anos, vamos encontrar o Batista na sua gloriosa tarefa de preparação
do caminho à verdade, precedendo o trabalho divino do amor, que o mundo
conheceria em Jesus-Cristo.

João,
de fato, partiu primeiro, a fim de executar as operações iniciais para
grandiosa conquista. Vestido de peles e alimentando-se de mel selvagem,
esclarecendo com energia e deixando-se degolar em testemunho à Verdade, ele
precedeu a lição da misericórdia e da bondade.

O
Mestre dos mestres quis colocar a figura franca e áspera do seu profeta no
limiar de seus gloriosos ensinos e, por isso, encontramos em João Batista um
dos mais belos de todos os simbolos imortais do Cristianismo. Salomé
representa a futilidade do mundo, Herodes e sua mulher o convencionalismo
político e o interesse particular. João era a verdade, e a verdade, na sua
tarefa de aperfeiçoamento, dilacera e magoa, deixando-se levar aos
sacrifícios extremos.

Como
a dor que precede as poderosas manifestações da luz no íntimo dos corações,
ela recebe o bloco de mármore bruto e lhe trabalha as asperezas para que a
obra do amor surja, em sua pureza divina.

João
Batista foi a voz clamante do deserto. Operário da primeira hora, é ele o
símbolo rude da verdade que arranca as mais fortes raízes do mundo, para que
o reino de Deus prevaleça nos corações. Exprimindo a austera disciplina que
antecede a espontaneidade do amor, a luta para que se desfaçam as sombras do
caminho, João é o primeiro sinal do cristão ativo, em guerra com as próprias
imperfeições do seu mundo interior, a fim de estabelecer em si mesmo o
santuário de sua realização com o Cristo. Foi por essa razão que dele disse
Jesus: “Dos nascidos de mulher, João Batista é o maior de todos..

Anúncios

Sobre aricarrasco

sou simples mas co objetivos e convicções definidos.
Esse post foi publicado em Espiritismo. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s