A MISSÃO DE ALLAN KARDEC

Carlos Imbassahy

A Missão
de Allan Kardec

Edição conjunta de:

Federação Espírita do Paraná

Federação
Espírita Catarinense

Federação
Espírita do Rio Grande do Sul

União das Sociedades Espíritas do
Estado de São Paulo

União das Sociedades Espíritas do
Estado do Rio de Janeiro

Os precursores

 

A alma, seguindo a lei de evolução que rege os corpos, se vem
desenvolvendo através dos reinos da natureza e através dos séculos até chegar à
nossa espécie.

 

Ela traz,
portanto, ao entrar na vida humana, resíduos milenários, e daí a selvageria, o
egoísmo, a fereza, os sentimentos inferiores que parecem constituir os
caracteres da grande maioria dos seres.

Para acelerar o nosso progresso espiritual vem o Criador enviando ao
planeta os seus Instrutores e eles nos comunicam as leis divinas, que são pauta
de nossa conduta, que são os ensinos que nos devem encaminhar ao bem e aos bons
sentimentos.

O Bramanismo,
cujas raízes se perdem no tempo, recomenda aos homens a coragem moral, a
sabedoria, o amor às criaturas, o sacrifício, a retidão, a austeridade.

 No Prasada
se atribui a Krishna as máximas que estabelecem a moral dos povos; elas nos
dizem que o orgulho, a avareza, a crueldade, a cólera, o tédio, as paixões
vergonhosas e os vícios tornam os homem desprezível.

Zoroastro,
há muitos séculos, fundava na Pérsia uma religião digna de respeito…

Jeremias
toma a defesa dos oprimidos, clama pela paz, prega contra a tirania, a veniaga,
o assassínio, os maus costumes. Deixa ao mundo uma grande lição e um grande
exemplo. Era um homem que chorava, como choram todos aqueles que percebem as
fraquezas do povo, a falência da humanidade.

Buda,
600 anos antes do Cristo, apresenta uma religião fundada na misericórdia, no
bem, na instrução, no desprendimento, no altruísmo, na mansidão, no respeito
mútuo, na fraternidade, na ausência de desejos e paixões.

Recomendava
a ação reta, a existência reta, a linguagem reta, a aplicação reta, o
pensamento reto, a meditação reta. Em síntese, era o não pequeis por
pensamentos, palavras e obras
. Por toda parte aconselhava e repetia a
máxima bramânica – “Sede como o sândalo que perfuma o machado que o corta”.

No Oriente,
fulguram três grandes estrelas: Lao-Tse, Mêncio e Confúcio.

Lao-Tse
apresenta o Livro da Razão Suprema e estabelece os princípios morais que
os dois astros, mais tarde, espalham e desenvolvem.

Mêncio,
ou Meng-Tse, em seu Tratado de Moral, aponta aos homens a sua verdadeira
conduta.

Confúcio
resume o seu longo ensino na frase – “Não faças aos
outros o que não queres que te façam”.

Detenhamo-nos
agora nos dois gigantes nascidos naquele país onde floresceu o gênio antigo,
onde a Literatura, a Arte, a Filosofia e a Política foram de uma ousadia que
ainda causam admiração aos séculos que se seguiram.

Dir-se-iam os precursores do Cristianismo e as suas idéias se
ajustam às que nos trazem os Espíritos, hoje englobadas na obra imorredoura de
Allan Kardec.

Foram eles: Sócrates e Platão.
Sócrates deixa a Platão a sua filosofia:

“O homem é uma alma encarnada. Existe antes de tomar um corpo na
Terra, à qual deseja voltar. Não é no corpo, porém, que encontramos a verdade;
nele estamos sempre cheios de desejos, apetites, temores, ambições, quimeras,
frivolidades.

A alma impura vive presa ao mundo e persevera no mal. São longos e
numerosos os períodos da vida. Só os bons podem esperar tranqüilamente a
passagem deste a outro plano, ou seja, a passagem da morte. A maior
infelicidade é conservar a alma cheia de pecados.

Mais vale receber uma injúria que cometê-la. Devemos ser homens de
bem. O bem é que eleva o homem. Não se deve fazer mal algum por muito mal que
nos façam.

A árvore se conhece pelo fruto.”

Como
o Cristo, já Sócrates falava no perigo das riquezas.

“Pouco valem as preces – ensinava ele – se a alma não é virtuosa. E
não é virtuoso aquele que prefere os prazeres do corpo às belezas da alma. É o
amor que ornamenta a natureza e é o amor que dá paz aos homens. O amor e a dor
contribuem para o progresso.

Costumamos ver os erros alheios, esquecendo os nossos. E o homem,
na sua existência, espalha mais o mal que o bem.

Será sábio não supor saber o que não sabe.”

A
vida de Sócrates foi um apostolado. “Conhece-te a ti mesmo” – aconselhava sempre. É o nosce
te ipsum
de que os romanos fizeram uma divisa. “É preciso conhecer – dizia
ele –. O conhecimento nos leva ao caminho da verdade.”

Conhecemos a
vida e os ensinos de Sócrates pelos Diálogos de Platão e Xenofonte. Viveu
ensinando e morreu pelos seus ensinos. Foi vítima da ignorância e da maldade
humana. Os fanáticos não poderiam compreendê-lo, como, ainda hoje, muitos não
compreendem os princípios de lógica nem a lógica dos princípios que os Arautos
do Senhor nos trazem.

Teve a sorte de quase todos os que se destacam da craveira comum e
procuram, no bem, pelo bem e nos ensinos do bem, a felicidade de seus
semelhantes.

Fizeram-no morrer. Mas aplainou, com seu trabalho, seu esforço, suas
penas e seu sangue, o caminho que estamos palmilhando.

Finalmente o
Cristo.
Este legou à humanidade um Evangelho de paz, de harmonia, de perdão, de amor.
Sua maior máxima era um resumo de toda a sua pregação messiânica: “Amai-vos uns
aos outros”.

E para Ele
os apodos, o opróbrio, o flagício, o açoite, os espinhos, a cruz.


 

 

 

A imperiosa necessidade do advento espiritual

 

A palavra de
Deus estava esquecida, se é que se tornou lembrada alguma vez. Foi quando
chegou a época em que era preciso abalar a consciência humana por meios
persuasivos, pela força da prova.

A Ciência tinha aberto profundos sulcos nos espíritos e por esses
sulcos a fé, sem base segura, sem lógica esclarecedora, se ia escoando, e
deixava secos esses veios por onde antes corria a seiva da crença.

Apresentava-se
diante da psicologia o quadro do nosso Nordeste, quando sobrevêm as grandes
estiagens. Rios, mais ou menos caudalosos, que com suas águas fertilizantes
regavam grandes tratos de terra, que banhavam as cidades, que levavam a vida a toda
parte, agora se mostram com seus leitos vazios, exangues, nus, dando àquela
região o mais terrível aspecto da desolação e da miséria.

Assim seria
o espírito quando dele retirassem a idéia de Deus, idéia que é a linfa
vivificante, e que o progresso científico faria certamente estiolar, se a
Providência não nos socorresse imediatamente com o remédio salvador.

Mas aquela
idéia ia empalidecendo à proporção que os processos de investigação iam
ganhando vulto. A Ciência estabelecia leis para os fenômenos. O Universo
aparecia-nos com o seu mecanismo devidamente estudado e devidamente firmado… Já
não era presidido pela vontade arbitrária de Deus; já não haviam milagres; já
não era Júpiter tonante quem preparava os trovões; os cataclismos não mais
significavam a cólera divina e o desejo de oblatas e imolações; já os nossos
destinos, já os fatos naturais, já a atividade cósmica não dependiam dos
desejos ou dos caprichos inexplicáveis do Onipotente.

Tudo passava
ao império formidável da Lei. Pesquisavam-se as causas e descobriam-se
os efeitos. Verificava-se por que os astros se moviam; perscrutava-se a gênese
das moléstias; sondava-se a origem dos abalos telúricos, das avalanches, das
enchentes, das inundações, das nevadas, dos temporais… Os descobrimentos mostravam
o crescente valor da matéria, à proporção que iam fugindo os vestígios do
espírito.

Não o viam no corpo os anatomistas; não o percebiam os biologistas;
não o explicavam os filósofos. E a Psicologia, da qual tudo se esperava,
mancomunada com as demais disciplinas, entrava a vislumbrar nas ações psíquicas
a influência somática.

Era o
completo desbarato das religiões, impotentes diante do avanço do progresso
material, desmoralizadas diante da ruína das realizações morais.

De fato,
elas tinham sido incapazes de dominar as paixões humanas, para conter-lhes os
ímpetos de animalidade, para trazer ao coração do indivíduo o amor que
pregavam.

Os grandes missionários vinham ao mundo com a palavra de Deus; tal
era a sublimidade e a grandeza da missão, tais os sacrifícios que dela
dimanavam; por tal forma a criatura investida do excelso mandato se
identificava com o Criador, na idéia, que o verbo se fazia carne. Daí, talvez,
os versículos de João:

 

“No
princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus… E o Verbo se fez
Carne e habitou entre nós…”

Mas o calor
do Verbo se apagava ao contato dos seres humanos, sempre cheios de egoísmo, de
revoltas, de ambições, de fereza, de maldades. E não só desobedeciam aos
preceptores como os imolavam.

Os vícios costumavam trazer a ruína do corpo e da alma. Corruptores
e corrompidos, para todos a virtude era motivo de irrisão. Diante de um gozo
terreno, atascavam-se nas maiores vilezas. Tinham pela liberdade, pela honra e
pela vida alheia a maior indiferença, senão o maior desprezo. Adoravam a si
próprios e a Deus, quando muito, em imagem.

Em vez da paz, supremo escopo de todas essas mensagens baixadas do
Espaço à Terra, o que imperava era o sentimento bélico; o que vinha
constantemente à tona eram as lavas, encobertas até o momento de explodirem,
era o facho de Belona rarissimamente apagado, eram os povos a se trucidarem, a
se matarem, a se aniquilarem, com uma impiedade assombrosa, fazendo os homens
que os animais os invejassem na sua selvageria, na sua truculência, na sua perversidade.

Em nome das próprias seitas e dos seus ministros, viviam os seres em
perpétua hostilidade. As lutas entre sarracenos e cristãos ensangüentaram as
terras da Europa, Ásia e África. A bandeira do Cristo, nas mãos de católicos e
protestantes, trouxe à Europa, durante vários séculos, a inquietação, a ruína,
a devastação, o sangue, o luto, a morte.

Em nome do Cristo acenderam-se as fogueiras da Inquisição, em que
uns por serem judeus, outros por serem doentes, outros por serem sábios e outros
por simples e infundadas denúncias, iam expiar, nas labaredas, crimes que não
tinham cometido, doenças de que não tinham culpa, idéias que não supunham ser
pecado; e expiravam, depois dos atrozes suplícios a que eram submetidos.

Levavam-nos à pira em solenes procissões, por vezes com feições
carnavalescas; havia rezas e cantos sacros, tendo os condenados sempre diante
do rosto o crucifixo, e era com o crucifixo à vista que padeciam as mais
terríveis dores físicas e morais.

Não admira que os verdugos preparassem essa falange de cépticos
que hoje habitam o planeta; as antigas vítimas levavam para o Além uma triste e
dolorosa lembrança do Divino Mestre e com ela voltavam à Terra.

Os vivos, pelos exemplos por eles deixados; os mortos, com a
lembrança das torturas experimentadas e a que associavam a efígie do Cristo,
voltando à carne, viriam com aquela imagem, que era a da bondade, a do perdão,
tendo a amargura incrustada n’alma, e só o tempo poderia fazer que o Nazareno
tornasse aos corações dos mártires.

 

Em nome de Jesus proscreveram o indulto, a justiça, a lealdade, a
benignidade. E então cometeram-se as maiores perfídias, como a da noite de São
Bartolomeu; as maiores insânias, como a das Cruzadas; as maiores crueldades,
como o extermínio dos cátaros e dos albigenses; a maior infâmia, como a
Inquisição; as maiores espoliações, como o confisco dos bens das vítimas; como
o sacrifício dos índios do Pacífico, vencidos, roubados e assassinados.

Em nome de Deus procurava-se prender o vôo do progresso, fazer calar
a voz do conhecimento, emudecer a razão, e daí a retratação de Galileu, os
sustos de Copérnico.

“Quando a influência de Averrhoes levantou na Espanha um grande
movimento, que envolvia as ciências conhecidas, como a Astronomia, a
Matemática, a Cosmografia, a Hidrostática, a Óptica, a Química, a Medicina, a
Literatura, logo a Inquisição se ergueu para abafá-la.”

O cardeal Ximenes destrói, solenemente, em praça pública, oito mil
manuscritos de grande importância histórica; Torquemada incinera as bíblias hebraicas
e faz queimar em Salamanca mais de seis mil volumes de literatura oriental.

Quando Cristóvão Colombo se lembrou de viajar para a Índia, pelo
Atlântico, esbarrou nos princípios teológicos, que condenavam essa viagem, por
estar em flagrante oposição às profecias, aos salmos, ao Pentateuco, a São
Basílio, a Santo Ambrósio, a Santo Agostinho, a São Jerônimo, a quanto santo e
a quanto padre da Igreja por aí havia.

Giordano Bruno publicou a teoria da pluralidade dos mundos, sem
lembrar-se que isto iria golpear a Gênese, e este seu descuido fê-lo perecer
numa fogueira purificadora, em Roma, no ano de N.S. Jesus Cristo, aos 16 de
fevereiro de 1600.

Descobrir qualquer coisa que, implícita ou explicitamente, entrasse
em desacordo com a Sagrada Escritura, ou seja, com a Palavra de Deus, que
ninguém sabia quem a ouviu ou como no-la foi transmitida, era ter, como certa,
a cremação em praça pública, para escarmento dos hereges.

 

Havia um guerreiro sanguinário, de notável ferocidade. Rezam as
crônicas que, jovem ainda, gostava de beber e brigar. No cerco de Pamplona
cometeu iniqüidades incríveis. Mas o energúmeno quebrou uma perna e se deu,
então, a leituras sacras. Passou a ter visões; apareceu-lhe o diabo, o que não
seria de admirar. O espantoso é que fosse ele substituído por Maria, mãe do
Cristo, e depois pelo próprio Cristo.

Fez-se mendigo, anacoreta, e fundou uma sociedade misteriosa para
a propagação da fé. Esse homem se chamou
Inácio de Loiola.

O que foi a Companhia de Jesus, a
tal sociedade, todos o sabem. Era a conversão pela opressão, pela espada, pela
violência, sob qualquer forma, pela traição, pelo punhal, pelo veneno, pela
fogueira.

A terrível
Companhia foi uma das fontes da civilização ocidental – dizem historiadores
conscienciosos – e, segundo Schwill (Political History of Modern Europe),
as benesses desse progresso estenderam-se à Índia, ao Japão, à China e aos
íncolas americanos.

Pedro
Tarsier nos diz que Romanismo e Jesuitismo se confundem com ligeiras
diferenças: “A
Igreja de Roma matava às claras; o jesuitismo às escondidas; Roma assassinava
na sua credulidade; o jesuitismo com hipocrisia e com dolo…”

A Igreja Protestante
não tem
sido menos intolerante. Calvino manda matar Miguel Servet. Não escapou à
fogueira Baltazar Hubmaier, filiado em Zurich à Igreja de Zvinglio, da qual se
desaveio. Sua mulher foi lançada ao Danúbio e aí pereceu afogada.

Na Segunda Dieta de Spira
os católicos uniram-se aos protestantes e exterminaram os anabatistas. Na
Inglaterra, os anglicanos baniam ou queimavam os não conformistas. Em muitos
pontos eram os batistas as vítimas.

Se os
católicos queimavam por um lado, os protestantes queimavam pelo outro. O ponto
era terem na mão o fantoche real, que se supunha o soberano.

Maurice
Magre (Porquoi je suis budiste) dizia-nos que era fácil saber quando se
tinha instalado na América a civilização cristã, pelos seus suplícios e suas
piras.

E o
pensador, estarrecido diante desse oceano de maldades, desse pélago assustador
da ignorância e da estupidez humanas, começava a descrer da bondade divina e
até mesmo da existência da Divindade.

As desordens planetárias, as agrestias da natureza, os flagelos, a
luta ininterrupta entre os seres de qualquer espécie, a carnificina entre os
homens, e entre homens e animais, levou certo filósofo a afirmar – le monde
est um éternel carnage
; tudo isso e mais a estultícia de par com a
desonestidade; a obstinação no mal e as dores que suportamos, ou que suportam,
principalmente, os inocentes, eram o mais profundo desmentido aos predicados
emprestados a Deus: onisciente, fez um mundo errado; onipresente, lugares havia
onde não lhe era dado ingressar; onipotente, não tinha o poder de reformar as
criaturas; sendo a bondade infinita, criava um orbe das mais pungentes
agonias… Um Deus capaz de fabricar esta morada, onde uns tinham o quinhão da
miséria, do sofrimento, das lágrimas, das angústias, e outros o da higidez, da
fortuna, do poder; a existência de uma humanidade dividida em duas porções, a
dos que sofrem e a dos que fazem sofrer; em que a iniqüidade, a injustiça e a
ferocidade eram recompensadas com o fausto, a força e a glória; em que os
Tamerlães e os Gengis-Kans, depois de passarem por milhares de cadáveres,
depois de assolarem as nações, depois de fazerem obeliscos de crânios humanos e
darem os filhos dos vencidos para que os filhos dos vencedores os matassem, iam
repousar os cansados braços homicidas em leitos de prazer, e terminavam os seus
dias cobertos de louros, de hinos e de flores; um mundo assim, sem luz que nos
esclarecesse, desmentia por certo a obra do Criador.

No próprio
Livro Sagrado contavam-se como grandes façanhas, como louváveis heroicidades os
mais pavorosos morticínios, as mais degradantes cenas, e se dava aquilo como
ordenado por Jeová, que premiava os matadores ou assistia, indiferente, aos
mais hediondos espetáculos.

Um Deus
dessa ordem havia de ir mirrando perante a fé dos que começavam a abrir os
olhos aos clarões da Filosofia, e diante dos que iam entrevendo a verdade
através da Ciência.

E isto seria
o Ateísmo.

Foi nesse período crítico para a Humanidade que surgiram os
chamados fenômenos de Hydesville, os quais vinham, “depois de procelosa
tempestade”, trazer essa manhã de claridade e de luz, aurora de um mundo novo,
que tanto empenho se faz em encobrir.

 

Era o
rebate.

Os fenômenos despertaram a atenção das criaturas; de pequena aldeia
se estendia por toda parte, atravessava os mares e vinha dar no Velho
Continente o testemunho da imortalidade e da justiça na Criação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gino Trespioli:

“Saúde física, estima pública, paz em família, florescentes
condições econômicas, dignidade social, satisfações e triunfos, nada do que nos
ocupa e preocupa todos os dias e por que lutamos como por coisas sem as quais a
vida seria um tormento, nada pode representar o valor que há em saber-se o que
nos sucederá depois da morte.”

 

 

 

 

Allan Kardec e os seus colaboradores

 

        O
século XIX desenrolava uma torrente de claridades na face do mundo,
encaminhando todos os países para as reformas úteis e preciosas. As lições
sagradas do Espiritismo iam ser ouvidas pela Humanidade sofredora.  Jesus,
na sua magnanimidade, repartiria o pão sagrado da esperança e da crença com
todos os corações.

 

 

 

        Allan_Kardec, todavia,
na sua missão de esclarecimento e consolação, fazia-se acompanhar de uma
plêiade de companheiros e colaboradores, cuja ação regeneradora não se
manifestaria tão-somente nos problemas de ordem doutrinária, mas em todos os
departamentos da atividade intelectual do século XIX. 

 

      A
Ciência, nessa época, desfere os vôos soberanos que a conduziriam às
culminâncias do século XX.

   

      O progresso da arte tipográfica
consegue interessar todos os núcleos de trabalho humano, fundando-se
bibliotecas circulantes, revistas e jornais numerosos

      A facilidade de comunicações, com o
telégrafo e as vias férreas, estabelece o intercâmbio direto dos povos.

      A literatura enche-se de expressões
notáveis e imorredouras.

   

      O laboratório afasta-se
definitivamente da sacristia, intensificando as comodidades da civilização.

   

      Constrói-se a pilha de coluna,

      descobre-se a indução magnética,

      surgem o telefone e o fonógrafo.

      Aparecem os primeiros sulcos no campo
da radiotelegrafia,

   

      encontra-se a análise espectral e a
unidade das energias físicas da Natureza.

   

      Estuda-se a teoria atômica

   

      e a fisiologia assenta bases
definitivas com a anatomia comparada.

  

      As artes atestam uma vida nova.

    

      A pintura e a música denunciam
elevado sabor de espiritualidade avançada.

 

        A dádiva celestial do
intercâmbio entre o mundo visível e o invisível chegou ao planeta nessa onda de
claridades inexprimíveis. Consolador_da_Humanidade, segundo as promessas do
Cristo, o Espiritismo vinha esclarecer os homens, preparando-lhes o coração
para o perfeito aproveitamento de tantas riquezas do Céu.

[52 – página  197]

[52] A CAMINHO DA LUZ
Francisco Cândido Xavier – ditado pelo espírito Emmanuel, 22ª edição

www.guia.heu

 

 

 

 

As Pesquisas Psíquicas pós Kardec

Jornal Universo Espírita

 

 

 

Charles Richet, fundador da Metapsíquica,
divide a evolução histórica dos fenômenos parapsíquicos no Ocidente em quatro
períodos, a saber:

 

Período mítico: se
estende da mais remota antiguidade até Mesmer e suas doutrinas sobre magnetismo
animal (1778);

 

 

Período magnético: vai de
Mesmer (1778) às irmãs Fox (1847). Mesmer introduz o ‘fluido’ e o sonambulismo
artificial (hipnose), primeiras noções da percepção extra-sensorial;

 

Período espirítico: das
irmãs Fox (1847) a William Crookes (1872). Com Allan Kardec surge a teoria do
Espiritismo. Ápice do mediunismo. Espiritismo como sistema filosófico e
posteriormente religioso

 

 

Período científico:
inicia-se a partir de 1872, com as pesquis

as de William Crookes, subdivididas em: período metapsíquico (1872
a 1930) e período parapsicológico (de 1930 aos dias atuais).

 

 

 

 

A comunicação com os mortos
vira ciência

 

 

Embora o Espiritismo tenha feito muitos adeptos e conversões
durante o próprio séc. XIX e início do séc. XX em diferentes meios sociais,
chama a atenção o fascínio que a nova doutrina parece ter exercido no meio
intelectual, artístico e científico da época, gerando tanto fervorosos adeptos
como tenazes adversários.
Arthur Conan Doyle, Victorien
Sardou, Victor Hugo, Robert Owen, Cesare Lombroso, William Crookes, Oliver
Lodge, Camille Flammarion, Charles Richet,
entre
outros, dedicaram-se a estudar o ‘outro lado’, recuperando o passado, revendo a
religião à luz da ciência e encarando a morte sob novos aspectos.

 

Grupos de cientistas reuniam-se em torno de médiuns, investigavam,
eliminavam possibilidade de fraudes. Muitas dessas reuniões de estudos
realizavam-se em centros de pesquisas e laboratórios e os convidados eram
pessoas credenciadas pela comunidade intelectual e científica. Um exemplo foram
as 43 sessões organizadas pelo Instituto Geral Psicológico de Paris nos anos
1905, 1906 e 1907, com a médium Eusápia Paladino, que incluíram, na sua
assistência, Bergson, o casal Curie e Debierne, o reitor da Sorbonne. Embora
muitos dos assistentes do meio científico não ficassem convencidos, um grande
número confessou a sua adesão.

 

Um dos mais importantes convertidos às novas descobertas propostas
pelo Espiritismo foi
Camille Flammarion (1842
– 1925), o eminente astrônomo e cientista do séc. XIX. Tornou-se espírita,
amigo pessoal de Allan Kardec, e pronunciou o discurso fúnebre à beira de seu
túmulo, imbuído pelas convicções doutrinárias espíritas, sobretudo a
imortalidade da alma e a visão de que a morte era uma libertação, uma
continuidade para uma nova existência espiritual, operosa e de estudos.

 

Os fenômenos espíritas também repercutiram
fora da França. Um dos cientistas mais importantes a dedicar-se ao estudo dos
fenômenos foi o inglês William Crookes, cuja história está relacionada com a da
médium Florence Cook e a materialização do espírito Katie King.

 

 Químico e astrônomo, a partir
de 1856 fez parte da Sociedade Real de Londres dedicando-se a trabalhos
fotográficos sobre a lua. Descobriu um processo, a amalgamação do sódio e pela
análise espectral tornou conhecido um novo corpo metálico simples, o tálio.
Através de uma série de experiências bem sucedidas demonstrou com exatidão um
quarto estado da matéria, além do sólido, líquido e gasoso: o da matéria radiante.
Com essa posição intelectual e científica, anunciou que iria se ocupar dos
chamados fenômenos espíritas, com o rigor de um experimentador científico. Em
1874, publicou os primeiros resultados de suas pesquisa no “Quarterly Journal
of Science”. Em fevereiro de 1897 publicou suas observações sobre os fatos
espíritas.

(…) Os fenômenos observados: levitações, psicografia,
telecinesia, materializações e aparições luminosas de objetos foram colocados
como fatos incontestáveis, que mereceriam uma laboriosa série de experiências e
elaborações teóricas de acordo com as mais recentes descobertas científicas.

Para alguns outros convertidos, como Arthur
Conan Doyle,
o desabar da muralha entre o mundo dos
mortos e dos vivos; os fatos que comprovam de forma cabal a sobrevivência após
a morte e a comunicação entre mortos e vivos deveriam conduzir a uma grande
transformação e esperança para o gênero humano pela formação de uma nova e
atual expressão religiosa que levasse os homens a uma existência mais
espiritualizada.

 

Cientistas de renome na Itália também passaram a integrar o
conjunto de estudiosos dos chamados fenômenos psíquicos.
Schiaparelli,
Chiaia, Brotasi, Lombroso e Bozzano

fizeram parte dessa galeria.
Ernesto Bozzano
destacou-se nesse grupo dedicando trinta anos às pesquisas psíquicas. Publicou
inúmeros trabalhos científicos sobre o assunto, expondo os princípios básicos
que o levaram a aderir à hipótese espírita por ser uma “necessidade lógica”.

 

Uma das conversões mais intrigantes do final do séc. XIX foi a de Cesare
Lombroso
, médico, higienista, psiquiatra e antropólogo. Seus famosos
estudos estavam na área da Antropologia Criminal, nos quais revelava sua
incondicional adesão aos de investigação científica positiva de sua época.
Estudava homens e fatos numa mesma perspectiva, como ponto de partida do método
experimental. Estabeleceu uma teoria em que expunha a Gênese Natural do Delito
e as bases do sistema penal positivo, associando Direito Penal e Antropologia
Criminal.

 

(…) Durante muitos anos, negou os fenômenos psíquicos e
espirituais como charlatanice e credulidade simplória. Porém, após assistir a
algumas sessões mediúnicas realizadas por Eusápia Paladino, e verificando a
veracidade e autenticidade da produção dos fenômenos e das manifestações espirituais,
Lombroso começou suas pesquisas.

 

Em 15 de julho de 1891 foi publicada uma carta onde declarou sua
rendição aos fatos espirituais: Estou muito envergonhado e desgostoso por haver
combatido com tanta persistência a possibilidade dos fatos chamados espiríticos;
digo fatos, porque continuo ainda contrário à teoria. Mas os fatos existem, e
deles me orgulho de ser escravo.

 

No desenvolvimento de suas observações e estudos, Lombroso
caminhou na direção de aceitar a interferência e influência de seres espirituais
sobre as manifestações e os fenômenos produzidos. Em 1909 publicou

“Hipnotismo e Mediunidade
”, onde descreveu, de forma
categórica e imbuída do mais ortodoxo espírito científico, os resultados de
seus estudos, diante das hipóteses espíritas e de sua veracidade e lógica.

 

(…) Também na Alemanha foram realizadas experiências científicas
da sobrevivência após a morte. Faziam parte do grupo de especialistas, entre
outros,
Johann Karl Friedrich Zöllner, professor de física e astronomia da
Universidade de Leipzig e elaborador da hipótese da teoria sobre a quarta
dimensão do espaço; professor Wilhelm Edward Weber, de física e autor da
doutrina da Vibração das Forças; Schneiber, matemático de renome na
Universidade de Leipzig; Gustav Friedrich Fechner, físico e filósofo na mesma
Universidade.

 

Este grupo publicou em 1879 o resultado de suas pesquisas. Para
eles tratava-se de uma Nova Ciência baseada em outra classe de Fenômenos
Físicos, provando a existência e um outro mundo de seres inteligentes. Liderados
por Zöllner, realizaram experiências com o famoso médium americano Henry Slade.
Ocorreram materializações, levitações, aparições, psicografia de mensagens, que
foram meticulosamente observadas, descritas e estudadas. Submetidos a
considerações teóricas, os fenômenos observados revelavam uma dimensão
científica e verdadeira, como um dos elementos fundamentais para a construção
da teoria do espaço em quarta dimensão e da sobrevivência espiritual.

 

(…) É muito grande a galeria de cientistas ilustres dessa época
seduzidos pelos fenômenos espíritas, realizando estudos, pesquisas, construindo
teorias e revelando sua adesão, em maior ou menor grau, às novas crenças. Em
vários países europeus e do continente americano, esses estudos apontam um
mesmo caminho, que marcou a história do pensamento contemporâneo: a necessidade
de comprovar pelos argumentos científicos aquilo que antes estava no domínio da
fé religiosa”.

(Eliane Moura Silva. “Vida e morte: o homem no labirinto da
eternidade”, tese de doutorado. Departamento de História do Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas, UNICAMP, 1993; pp. 183-190).

LIVROS RECOMENDADOS:
1. G. Delanne – O Fenômeno Espírita; O Espiritismo Perante a
Ciência; A Alma é Imortal. Editora: FEB

2. A. Erny – O
Psiquismo Experimental. Editora: FEB

3. A. Aksakof –
Animismo e Espiritismo. Editora: FEB

4. A. C. Doyle –
História do Espiritismo. Editora: Pensamento

5. C. Imbassahy – O
Espiritismo à Luz dos Fatos. Editora: FEB

6. W. Crookes – Fatos
Espíritas. Editora: FEB

7. E. Bozzano – todos
os livros. Editora: FEB

8. C. Flammarion –
todos os livros. Editora: FEB.

Nota da Redação:
Esta matéria serviu de base para a Reunião de Estudos promovida
pela 10ª União Regional Espírita em 26/09/1999 na Sociedade Espírita Paz, Amor
e Luz, em Cascavel PR.

Fonte: Jornal Universo Espírita – mar/2003 –
www.universoespirita.net

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Sobre aricarrasco

sou simples mas co objetivos e convicções definidos.
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