Judas Iscariotes

Judas Iscariotes


Livro: Crônicas de Além-Túmulo
Humberto de Campos & Francisco Cândido Xavier
http://omensageiro.com.br/mensagens/index_contos.htm

Silêncio augusto cai sobre a
Cidade Santa. A antiga capital da Judéia parece dormir o seu sono de muitos
séculos. Além, descansa Getsêmani, onde o Divino Mestre chorou numa longa
noite de agonia; acolá, está o Gólgota sagrado, e em cada coisa silenciosa há
um traço da Paixão que as épocas guardarão como sempre. E, em meio de todo o
cenário, como um veio cristalino de lágrimas, passa o Cedron silencioso, como
se as suas águas mudas, buscando o Mar Morto, quisessem esconder das vistas
dos homens os segredos insondáveis do Nazareno.

Foi assim, numa destas
noites, que vi Jerusalém, vivendo a sua eternidade de maldições.

Os Espíritos podem vibrar em
contacto direto com a História. Buscando uma relação mais íntima com a cidade
dos profetas, eu procurava observar o passado vivo dos Lugares Santos. Parece
que as mãos iconoclastas de Tito por ali passaram como executoras de um decreto
irrevogável. Por toda parte ainda persiste um sopro de destruição e desgraça.
Legiões de duendes, embuçados nas suas vestimentas antigas, percorrem as
ruínas sagradas e, no meio das fatalidades que pesam sobre o império morto
dos judeus, não ouvem os homens os gemidos da humanidade invisível.

Nas margens caladas do
Cedron, não longe talvez do lugar sagrado onde o Salvador esteve com os
discípulos, divisei um homem sentado sobre uma pedra. De sua expressão
fisionômica irradiava-se cativante simpatia.

– Sabe quem é este? –
murmurou alguém aos meus ouvidos – Este é Judas…

– Judas?

– Sim. Os Espíritos apreciam,
às vezes, não obstante o progresso que já alcançaram, volver atrás, visitando
os sítios onde se engrandeceram ou prevaricaram, sentindo-se repentinamente
transportados aos tempos idos. Então, mergulham o pensamento no passado,
regressando ao presente, dispostos ao heroísmo necessário do futuro. Judas
costuma vir à Terra, nos dias em que se comemora a Paixão de Nosso Senhor,
meditando nos seus atos de antanho…

Aquela figura de homem
magnetizava-me. Não estou ainda livre da curiosidade de repórter, mas entre
as minhas maldades de pecador e a perfeição de Judas existia um abismo. Meu
atrevimento, porém, e a santa humildade do seu coração ligaram-se, para que
eu o entrevistasse, procurando ouvi-lo:

– O Senhor é de fato o
ex-filho de Iscariotes? – perguntei.

– Sim, sou Judas, respondeu
aquele homem triste, enxugando uma lágrima nas dobras de sua longa túnica.
Como o Jeremias, das Lamentações, contemplo às vezes esta Jerusalém
arruinada, meditando no juízo dos homens transitórios…

– É uma verdade tudo quanto
reza o Novo Testamento a respeito da sua personalidade, na tragédia da
condenação de Jesus?

– Em parte… Os escribas que
redigiram os Evangelhos não atenderam às circunstâncias e às tricas políticas
que, acima dos meus atos, predominaram na nefanda crucificação. Pôncio
Pilatos e o tetrarca da Galiléia, além dos seus interesses individuais na
questão, tinham ainda a seu cargo salvaguardar os interesses do Estado
romano, empenhado em satisfazer às aspirações religiosas dos anciãos judeus.
Sempre a mesma história. O Sinedrim desejava o reino do Céu, pelejando por
Jeová a ferro e fogo; Roma queria o reino da Terra. Jesus estava entre essas
forças antagônicas, com a sua pureza imaculada. Ora, eu era um dos
apaixonados pelas idéias socialistas do Mestre; porém, o meu excessivo zelo
pela doutrina me fez sacrificar o seu fundador. Acima dos corações, eu via a
política, única arma com a qual poderia triunfar e Jesus não obteria nenhuma
vitória com o desprendimento das riquezas. Com as suas teorias nunca poderia
conquistar as rédeas do poder, já que, em seu manto de pobre, se sentia
possuído de um santo horror à propriedade. Planejei, então, uma revolta
surda, como se projeta hoje em dia na Terra a queda de um chefe de Estado.. O
Mestre passaria a um plano secundário e eu arranjaria colaboradores para uma
obra vasta e enérgica, como a que fez mais tarde Constantino Primeiro, o
Grande, depois de vencer Maxêncio às portas de Roma, o que, aliás, apenas
serviu para desvirtuar o Cristianismo. Entregando, pois, o Mestre a Caifás,
não julguei que as coisas atingissem um fim tão lamentável e, ralado de
remorsos, presumi que o suicídio era a única maneira de me redimir aos seus
olhos.

– E chegou a salvar-se pelo
arrependimento?

– Não. Não consegui.. O
remorso é uma força preliminar para os trabalhos reparadores. Depois da minha
morte trágica, submergi-me em séculos de sofrimento expiatório da minha
falta. Sofri horrores nas perseguições infligidas em Roma aos adeptos da
doutrina de Jesus e as minhas provas culminaram em uma fogueira
inquisitorial, onde, imitando o Mestre, fui traído, vendido e usurpado.
Vitima da felonia e da traição, deixei na Terra os derradeiros resquícios do
meu crime, na Europa do século XV. Desde esse dia em que me entreguei por
amor do Cristo a todos os tormentos e infâmias que me aviltavam, com
resignação e piedade pelos meus verdugos, fechei o ciclo das minhas dolorosas
reencarnações na Terra, sentindo na fronte o osculo de perdão da minha
própria consciência…

– E está hoje meditando nos
dias que se foram… – pensei com tristeza.

– Sim… estou recapitulando
os fatos como se passaram. E agora, irmanado com Ele, que se acha no seu
luminoso Reino das Alturas, que ainda não é deste mundo, sinto nestas
estradas o sinal dos seus passos divinos. Vejo-o ainda na cruz, entregando a
Deus o seu Destino… Sinto a clamorosa injustiça dos companheiros que o
abandonaram inteiramente e me vem uma recordação carinhosa das poucas
mulheres que o ampararam no doloroso transe. Em todas as homenagens a Ele
prestadas, eu sou sempre a figura repugnante do traidor. Olho
complacentemente os que me acusam sem refletir se podem atirar a primeira
pedra… Sobre o meu nome pesa a maldição milenária, como sobre estes sítios
cheios de miséria e de infortúnio. Pessoalmente, porém, estou saciado de
justiça, porque já fui absolvido pela minha consciência, no tribunal dos
suplícios redentores.

Quanto ao Divino Mestre
– continuou Judas com os seus prantos -, infinita é a sua misericórdia
e não só para comigo, porque, se recebi trinta moedas vendendo-o aos seus
algozes, há muitos séculos Ele está sendo criminosamente vendido no mundo, a
grosso e a retalho, por todos os preços, em todos os padrões do ouro
amoedado…

– É verdade – concluí
-, e os novos negociadores do Cristo não se enforcam depois de vendê-lo.

Judas afastou-se, tomando a
direção do Santo Sepulcro, e eu, confundido nas sombras invisíveis para o
mundo, vi que no céu brilhavam algumas estrelas sobre as nuvens pardacentas e
tristes, enquanto o Cedron rolava na sua quietude comi um lençol de águas
mortas, procurando um mar morto.

 

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Sobre aricarrasco

sou simples mas co objetivos e convicções definidos.
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