Primeiras pregações

Primeiras pregações


Livro: Boa Nova – Cap. 3
Humberto de Campos & Francisco Cândido Xavier

Nos
primeiros dias do ano 30, antes de suas gloriosas manifestações, avistou-se Jesus
com o Batista, no deserto triste da Judéia, não muito longe das areias
ardentes da Arábia. Ambos estiveram juntos, por alguns dias, em plena
Natureza, no campo ríspido do jejum e da penitência do grande precursor, até
que o Mestre Divino, despedindo-se do companheiro, demandou o oásis de
Jericó, uma bênção de verdura e águas entre as inclemências da estrada
agreste. De Jericó dirigiu-se então a Jerusalém, onde repousou, ao cair da
noite.

Sentado
como um peregrino, nas adjacências do Templo, Jesus foi notado por um grupo
de sacerdotes e pensadores oCiOSOS, que se sentiram atraidos pelos seus
traços de formosa originalidade e pelo seu olhar lúcido e profundo. Alguns
deles se afastaram, sem maior interesse, mas Hanã, que seria, mais tarde, o
juiz inclemente de sua causa, aproximou-se do desconhecido e dirigiu-se-lhe
com orgulho:


Galileu, que fazes na cidade?


Passo por Jerusalém, buscando a fundação do Reino de Deus! exclamou o Cristo,
com modesta nobreza.


Reino de Deus? tornou o sacerdote com acentuada ironia. E que pensas tu venha
a ser isso?


Esse Reino é a obra divina no coração dos homens! esclareceu Jesus, com
grande serenidade.


Obra divina em tuas mãos? revidou Hanã, com uma gargalhada de desprezo.

E,
continuando as suas observações irônicas, perguntou:


Com que contas para levar avante essa difícil empresa? Quais são os teus
seguidores e companheiros?… Acaso terás conquistado o apoio de algum
príncipe desconhecido e ilustre, para auxiliar-te na execução de teus planos?


Meus companheiros hão de chegar de todos os lugares respondeu o Mestre com
humildade.

=
Sim observou Hanã —, os ignorantes e os tolos estão em toda parte na
Terra. Certamente que esse representará o material de tua edificação.
Entretanto, propões-te realizar uma obra divina e já viste alguma estátua
perfeita modelada em fragmentos de lama?


Sacerdote – replicou-lhe Jesus, com energia serena —, nenhum mármore
existe mais puro e mais formoso do que o do sentimento, e nenhum cinzel é
superior ao da boa-vontade.

Impressionado
com a resposta firme e inteligente, o famoso juiz ainda interrogou: –
Conheces Roma ou Atenas?


Conheço o amor e a verdade disse Jesus convictamente.


Tens ciência dos códigos da Corte Provincial e das leis do Templo? inquiriu
Hanã, inquieto.


Sei qual é a vontade de meu Pai que está nos céus respondeu o Mestre,
brandamente.

O
sacerdote o contemplou irritado e, dirigindo-lhe um sorriso de profundo
desprezo, demandou a Torre Antônia, em atitude de orgulhosa superioridade.

No
dia seguinte, pela manhã, o mesmo formoso peregrino foi ainda visto a
contemplar as maravilhas do santuário, antes alguns minutos de internar-se
pelas estradas banhadas de sol, a caminho de sua Galiléia distante.

* * *

Daí
a algum tempo, depois de haver passado por Nazaré, descansando igualmente em
Caná, Jesus se encontrava nas circunvizinhanças da cidadezinha de Cafarnaum,
cómo se procurasse, com viva atenção, algum amigo que estivesse à sua espera.

Em
breves instantes, ganhou as margens do Tiberíades e se dirigiu, resolutamente,
a um grupo alegre de pescadores, como se, de antemão, os conhecesse a todos.

A
manhã era bela, no seu manto diáfano de radiosas neblinas. As águas
transparentes vinham beijar os eloendros da praia, como se brincassem ao
sopro das virações perfumadas da Natureza. Os pescadores entoavam uma cantiga
rude e, dispondo inteligentemente as barcaças móveis, deitavam as redes, em
meio de profunda alegria.

Jesus
aproximou-se do grupo e, assim que dois deles desembarcaram em terra,
falou-lhes com amizade: – Simão e André, filhos de Jonas, venho da parte de
Deus e vos convido a trabalhar pela instituição de seu reino na Terra!

André
lembrou-se de já o ter visto, nas cercanias de Betsaida, e do que lhe haviam
dito a seu respeito, enquanto que Simão, embora agradavelmente surpreendido,
o contemplava, enleado. Mas, quase a um só tempo, dando expansão aos seus
temperamentos acolhedores e sinceros, exclamaram respeitosamente:


Sede bem-vindo!…

Jesus
então lhes falou docemente do Evangelho, com o olhar incendido de júbilos
divinos.

Estando
muitos outros companheiros do lago a observar de longe os três, André,
manifestando a sua tocante ingenuidade, exclamou comovido:


Um rei? Mas em Cafarnaum existem tão poucas casas!..

Ao
que Pedro obtemperou, como se a boa-vontade devesse suprir todas as
deficiências:


O lago é muito grande e há várias aldeias circundando estas águas, O reino
poderá abrangê-las todas! Isso dizendo, fixou em Jesus o olhar perquiridor,
como se fora uma grande criança meiga e sincera, desejosa de demonstrar
compreensão e bondade, O Senhor esboçou um sorriso sereno e, como se adiasse
com prazer as suas explicações para mais tarde, inquiriu generosamente:


Quereis ser meus discípulos? André e Simão se interrogaram a si mesmos,
permutando sentimentos de admiração embevecida. Refletia Pedro: que homem
seria aquele? onde já lhe escutara o timbre carinhoso da voz íntima e
familiar? Ambos os pescadores se esforçavam por dilatar o domínio de suas
lembranças, de modo a encontrá-lo nas recordações mais queridas, Não sabiam,
porém, como explicar aquela fonte de confiança e de amor que lhes brotava no
âmago do espírito e, sem hesitarem, sem uma sombra de dúvida, responderam
simultaneamente:


Senhor, seguiremos os teus passos.

Jesus
os abraçou com imensa ternura e, como os demais companheiros se mostrassem
admirados e trocassem entre si ditérios ridicularizadores, o Mestre,
acompanhado de ambos e de grande grupo de curiosos, se encaminhou para o
centro de Cafarnaum, onde se erguia a Intendência de Ântipas. Entrou
calmamente na coletoria e, avistando um funcionário culto, conhecido
publicano da cidade, perguntou-lhe:


Que fazes tu, Levi? O interpelado fixou-o com surpresa; mas, seduzido pelo
suave magnetismo de seu olhar, respondeu sem demora:


Recolho os impostos do povo, devidos a Herodes.


Queres vir comigo para recolher os bens do céu? perguntou-lhe Jesus, com
firmeza e doçura.

Levi,
que seria mais tarde o apóstolo Mateus, sem que pudesse definir as santas
emoções que lhe dominaram a alma, atendeu, comovido:


Senhor, estou pronto!..


Então, vamos disse Jesus, abraçando-o.

Em
seguida, o numeroso grupo se dirigiu para a casa de Simão Pedro, que oferecera
ao Messias acolhida sincera em sua residência humilde, onde o Cristo fez a
primeira exposição de sua consoladora doutrina, esclarecendo que a adesão
desejada era a do coração sincero e puro, para sempre, às claridades do seu
reino. Iniciou-se naquele instante a eterna união dos inseparáveis
companheiros.

* * *

Na
tarde desse mesmo dia, o Mestre fez a primeira pregação da Boa Nova na praça
ampla, cercada de verdura e situada naturalmente junto às águas.

No
céu, vibravam harmonias vespertinas, como se a tarde possuísse também uma
alma sensível. As árvores vizinhas acenavam os ramos verdes ao vento do
crepúsculo, como mãos da Natureza que convidassem os homens à celebração
daquele primeiro ágape. As aves ariscas pousavam de leve nas alcaparreiras mais
próximas, como se também desejassem senti-lo, e na praia extensa se
acotovelava a grande multidão de pescadores rústicos, de mulheres aflitas por
continuadas flagelações, de crianças sujas e abandonadas, misturados
publicanos pecadores com homens analfabetos e simples, que haviam acorrido,
ansiosos por ouvi-lo.

Jesus
contemplou a multidão e enviou-lhe um sorriso de satisfação.

Contrariamente
às ironias de Hanã, ele aproveitaria o sentimento como mármore precioso e a
boa-vontade como cinzel divino. Os ignorantes do mundo, os fracos, os
sofredores, os desalentados, os doentes e os pecadores seriam em suas mãos o
material de base para a sua construção eterna e sublime. Converteria toda
miséria e toda dor num cântico de alegria e, tomado pelas inspirações sagradas
de Deus, começou a falar da maravilhosa beleza do seu reino. Magnetizado pelo
seu amor, o povo o escutava num grande transporte de ventura. No céu havia
uma vibração de claridade desconhecida.

Ao
longe, no firmamento de Cafarnaum, o horizonte se tornara um deslumbramento
de luz e, bem no alto, na cúpula dourada e silenciosa, as nuvens delicadas e
alvas tomavam a forma suave das flores e dos arcanjos do Paraíso.

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Sobre aricarrasco

sou simples mas co objetivos e convicções definidos.
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