UMBRAL

UMBRAL
BIBLIOGRAFIA
01 – A mansão Renoir – pág. 168 02 – A vida além do véu – pág. 124
03 – Ação e Reação – pág. 63/256 04 – Bíblia – Lucas 16 v 23; atos 2v 27
05 – Caminhos da Divulgação Espírita – pág. 49 06 – Desenvolvimento mediúnico – pág. 67
07 – História do Espiritismo – pág. 476 08 – Inquisição – época das trevas – pág. 90/112
09 – Libertação – pág. 92 10 – No Mundo Maior – pág. 219
11 – Nosso Lar – pág. 69/152/242 12 – O Livro dos Espíritos – Questões: 537/1017
13 – Pérolas do além – pág. 230 14 – Seareiros de volta – pág. 161
15 – Universo e vida – pág. 74 16 – Veladores da luz – pág. 52
17 – Voltei – pág. 75 18 – A sombra da luz –
19 – INSTITUTO DE CONFRATERNIZAÇÃO UNIVERSAL – 20 – Ação e reação – pág. 127
LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.

UMBRAL – COMPILAÇÃO

ALGUNS AUTORES DENOMINAM ESTA REGIÃO COMO: ABISMO, GEENA, INFERNO, REGIÃO INFERIOR E ZONA PURGATORIAL.

03 – AÇÃO E REAÇÃO – FRANCISCO C. XAVIER (ANDRÉ LUIZ ) – pág. 63/256

(…) Cães enormes que podíamos divisar cá fora, na faixa de claridade bruxuleante, ganiam de estranho modo, sentindo-nos a presença. De súbito, um companheiro de alto porte e rude aspecto apareceu e saudou-nos da diminuta cancela, que nos separava do limiar, abrindo-nos passagem. Silas no-lo apresentou, alegremente, era Orzil, um dos guardas da Mansão, em serviço nas sombras. A breve instantes, achávamos na intimidade de pouso tépido. Aos ralhos do guardião, dois dos seis grandes cães acomodaram-se junto de nós, deitando-se-nos aos pés. Orzil era de constituição agigantada, figurando-se-nos um urso em forma humana.

No espelho dos olhos límpidos mostrava sinceridade e devotamento. Tive a nítida idéia que éramos defrontados por um penitenciário, a caminho de segura regeneração. Na sala estreita e simples, alinhavam-se alguns bancos e, acima deles, destacava-se um nicho ovalado, em cujo bojo havia uma cruz tosca, alumiada por uma candeia estruturada em forma de concha.

Afastou-se Orzil para sossegar os grande animais menos domesticados, no interior da choupana, e, enquanto isso, o Assistente informou-nos: – É um amigo de cultura ainda escassa que se comprometeu em delitos lamentáveis no mundo. Sofreu muito sob o império de antigos adversários, mas presentemente, após longo estágio na Mansão, vem prestando valioso concurso nesta vasta região em que o desespero se refugia. É ajudado, ajudando. E, servindo com desinteresse e devoção fraternal, não somente se reeduca, como também suavizará o campo da nova existência que o aguarda na esfera carnal, pelas simpatias que vem atraindo em seu favor.

-Vive só? – perguntei, mal sopitando a curiosidade. –Dedica-se a meditações e estudos de natureza pessoal – comentou Silas, paciente -, mas, como acontece a muitos outros auxiliares, tem consigo algumas celas ocupadas por entidades em tratamento, prestes a serem recebidas em nossa instituição. Neste ponto do entendimento, Orzil voltou até nós e os Assistente interpelou-o, com bondade: -Como passamos de serviço? –Muito trabalho, chefe – respondeu ele, humilde. – A tempestade de ontem trouxe imensa devastação. Creio ter havido muito sofrimento nos pântanos.

Percebendo que se referia aos precipícios abismais em que se debatiam milhares de almas infelizes e conturbadas, Hilário perguntou: – E não será possível atingir semelhantes lugares para aliviar a quem padece? Nosso novo amigo esboçou dolorosa carantonha de tristeza e resignação, ajuntando: – Impossível.

Como quem se punha em socorro do companheiro, Silas aduziu: – Os que se agitam nestas furnas jazem, de modo geral, quase sempre extremamente revoltados e, na insânia a que se entregam, fazem-se verdadeiros demônios de insensatez. É necessário se disponham à conformação clara e pacífica para que, ainda mesmo semi-inconscientes, consigam acolher com proveito o auxílio que se lhes estende aos corações. (…)
(..) Situado entre a Terra e o Céu, dolorosa região de sombras, erguida e cultivada pela mente humana, em geral rebelde e ociosa, desvairada e enfermiça. (…)

07 – História do Espiritismo – Arthur Conan Doyle -pág. 476

Capítulo XXV – O Depois-da-Morte Visto pelos Espiritas
LEVA o Espírita uma grande vantagem sobre os das velhas dispensações. Quando entra em comunicação com inteligências do Outro Lado e que já viveram em corpos terrenos, naturalmente as interroga, curioso, sobre suas atuais condições, bem como sobre os efeitos de suas ações terrenas sobre a sua sorte posterior. As respostas a estas últimas perguntas, de um modo geral, justificam os pontos de vista sustentados em muitas religiões, e mostram que o caminho da virtude também é a estrada para a felicidade final. Entretanto um sistema definido é apresentado à nossa consideração, o qual elucida a vacuidade das velhas cosmogonias.

Esse sistema apareceu em vários livros que descrevem a experiência dos que viveram a nova vida. Devemos lembrar que tais livros não são produzidos por escritores profissionais. Deste lado está o chamado escritor “automático”, que recebe a inspiração; do outro lado, a inteligência que o transmite. Mas nem foi dotado pela Natureza com a menor capacidade literária, nem jamais fez a experiência de reunir narrativas. Também devemos ter em mente que o que quer que venha é resultado de um processo complicado, que em muitos casos deve ser incómodo para o compositor.

Se pudéssemos imaginar um escritor terreno que tivesse de usar uma ligação interurbana em vez da pena, poderíamos estabelecer uma grosseira analogia com as dificuldades do operador. E ainda, a despeito dessas grandes inconveniências, em muitos casos as narrativas são claras, dramáticas, intensamente interessantes. Raramente deixam de o ser, desde que o caminho que descrevem hoje é o que teremos que palmilhar amanhã.

Tem-se dito que essas narrativas variam enormemente e são contraditórias. O autor não achou tal. Num longo período de leitura, no qual examinou muitos volumes de supostas experiências póstumas, e também num grande número de mensagens obtidas particularmente em famílias e sem público, ele ficou chocado com a sua concordância geral. Aqui e ali aparece alguma história contendo erros claros e, ocasionalmente há lapsos no sensacionalismo; mas em geral as descrições são elevadas, razoáveis e concordantes, entre si, mesmo quando diferem nas minúcias.

As descrições de nossas próprias vidas naturalmente seriam diferentes nos detalhes e um crítico de Marte que recebesse histórias de um camponês hindu, de um caçador esquimó ou de um professor de Oxford bem poderia recusar-se a crer que tão divergentes experiências se encontrassem no mesmo planeta. Essa dificuldade não existe no Outro Lado; e não há, tanto quanto o saibamos, tão extremos contrastes na mesma esfera de vida — na verdade deve dizer-se que a característica da vida presente é a mistura de tipos diversos e dos graus de experiência, enquanto que a da outra vida é a subdivisão e a separação dos elementos humanos.

O céu é diverso do inferno. Neste mundo e atualmente o homem devia fazer — e por vezes o consegue por algum tempo — o céu. Mas há longos períodos que são muito intoleráveis imitações do inferno, enquanto purgatório deve ser o nome dado à condição normal.No Outro Lado as condições devem ser, esquematicamente, divididas em três. Há os que se acham presos à Terra e que trocaram os seus corpos mortais por corpos etéricos, mas que são mantidos na superfície deste mundo, ou próximos dela, pela grosseria de sua natureza ou pela intensidade de seu interesse mundano.

Tão áspera deve ser a contextura de sua forma extra-terrena, que devem ser reconhecidos mesmo por aqueles que não possuem o dom especial da clarividência. Nessa infeliz classe errante está a explicação de todos aqueles fantasmas, espectros e aparições, as casas assombradas que têm chamado a atenção da humanidade em todas as épocas. Essa gente, até onde podemos compreender a sua situação, ainda não começou a sua vida espiritual, nem boa, nem má. Somente quando se rompem os fortes laços da Terra é que se inicia uma vida nova.

Os que realmente começaram aquela existência encontram-se naquela faixa da vida que corresponde à sua própria condição espiritual. E’ o castigo do cruel, do egoísta, do fanático, do frívolo, que se encontram em companhia de seu semelhante e em mundos de luz que, variando do nevoeiro à escuridão, tipifica o seu próprio desenvolvimento espiritual. Esse ambiente, entretanto, não é permanente.

Os que não fizeram um esforço ascensional, entretanto, ficarão aí indefinidamente, enquanto outros que dão ouvidos ao ensino de Espíritos auxiliadores, mesmo de baixos círculos da Terra, cedo aprendem a lutar para subir a zonas mais brilhantes. Em comunicações dadas na própria família do autor, ele aprendeu o que era ter contacto com esses seres das trevas exteriores e teve a satisfação de receber os seus agradecimentos por uma visão mais clara de sua situação, as suas causas e os meios de cura.

Tais Espíritos pareceriam uma ameaça constante à humanidade porque se a aura protetora do indivíduo fosse de certo modo defeituosa, aqueles poderiam tornar-se parasitas, estabelecendo-se nela e influenciando as ações de seu hospedeiro. E’ possível que a ciência do futuro possa verificar que muitos casos de inexplicável mania, de insensata violência, de súbita inclinação para hábitos viciosos tenham essa causa, o que oferece um argumento contra a pena capital, de vez que o resultado deve ser dar mais forças para o mal do criminoso.

Deve admitir-se que o assunto ainda é obscuro, que é complicado pela existência de pensamentos-forma e de formas de memória, e que, em todo caso, todos os Espíritos presos à Terra não são necessariamente maus. Parece, por exemplo, que os monges devotos de qualquer venerável Glastonbury deveriam estar presos às suas ruínas assombradas pela simples força de sua devoção.

Se o nosso conhecimento das exalas condições dos que estão presos à Terra é defeituoso, maior ainda é o dos Círculos de punição. Há uma história de certo modo sensacional em “Gone West”, de Mr. Ward; há outra, mais temperada e crível na “Vida Além do Véu”, do Rev. Vale Owen; e há muitas corroborações nas visões de Swedenborg. no “Espiritismo”, do Juiz Edmonds e em outros volumes. Nossa falta de informações de primeira mão é devida ao fato de que não somos Hamlets e que não temos contacto direto com os que vivem nessas esferas inferiores.

Delas temos notícias indiretamente, através dos mais altos Espíritos que nelas realizam trabalhos missionários, trabalhos que parecem ser realizados com tamanhas dificuldades e perigos quanto os que rodeariam o homem que tentasse evangelizar as mais selvagens raças da Terra. Lemos histórias da descida de Espíritos elevados às mais baixas esferas, de seus combates com as forças do mal, de grandes príncipes do mal que são formidáveis em seus próprios reinos e de toda uma imensa cloaca de almas nas quais os esgotos psíquicos do mundo são derramados incessantemente.

Entretanto tudo isto deve ser considerado antes do ponto de vista do remédio do que do castigo. Essas esferas são as salas de espera — hospitais para almas doentes — onde a experiência punitiva é intentada para trazer o sofredor à saúde e à felicidade. Nossa informação é mais completa quando nos voltamos para regiões mais felizes, nas quais parece que a beleza e a felicidade são graduadas conforme o desenvolvimento espiritual dos seus habitantes. A coisa se torna mais clara se substituirmos a bondade e o altruísmo pela expressão “desenvolvimento espiritual”, pois nessa direção se encontra todo o crescimento da alma.

Por certo que é um assunto muito diverso do intelecto, embora a união das qualidades intelectuais com as espirituais naturalmente produzam efeitos mais perfeitos. As condições de vida no além normal — e seria um reflexo da justiça e da misericórdia da Inteligência Central se o além normal não fosse também o feliz além — são descritos como extraordinariamente felizes. O ar, as vistas, as casas, o ambiente, as ocupações, tudo tem sido descrito com tantos detalhes e geralmente com o comentário de que as palavras não são capazes de lhes pintar a gloriosa realidade.

Pode ser que haja algo de parábola e de analogia nessas descrições, mas o autor se inclina a lhes dar inteiro valor e acredita que a “Summer-land”, como Davis a chamou, é tão real e objetiva aos seus habitantes quanto o nosso mundo para nós. Fácil é levantar uma objeção: “Por que, então, não a vemos?” Mas devemos imaginar que uma vida etérica se exprime em termos etéricos e que, exatamente como nós, com cinco sentidos materiais, nos afinamos com o mundo material, eles com seus corpos etéricos, se afinam com as vistas e os sons do mundo etérico.

Aliás o vocábulo “éter” só é usado por conveniência, para exprimir algo muito mais sutil que a nossa atmosfera. Absolutamente não temos prova de que o éter dos físicos seja também o meio no mundo espiritual. Pode haver outras essências finas, muito mais delicadas que o éter, como é o éter em comparação com o ar. O céu espiritual, pois, pareceria uma sublimada e etérica reprodução da Terra e da vida terrena, em condições melhores e mais elevadas. “Embaixo — como em cima, dizia Paracelso, e fez soar a nota fundamental do universo, quando o proclamou.

O corpo leva, consigo, suas qualidades espirituais e intelectuais, imutáveis pela transição de uma sala da grande mansão universal para a vizinha. E’ inalterado na forma, salvo que o jovem e o velho tendem para uma expressão normal de completa maturidade. Garantindo que assim é, devemos admitir a racionalidade da dedução de que tudo o mais deve ser do mesmo modo e que as ocupações e o sistema geral de vida deve ser tal que permita oportunidades para os talentos especiais do indivíduo. O artista sem arte e o músico sem música seriam figuras trágicas e o que se aplica a tipos extremos deve estender-se a toda a humanidade.

Há, de fato, uma sociedade muito complexa, na qual cada um encontra o trabalho a que mais se adapta e que lhe causa maior satisfação. Por vezes há uma escolha. Assim, em “O Caso de Lester Coltman”, escreve o estudante morto: “Algum tempo depois que eu tinha passado, tinha dúvidas sobre qual seria o meu trabalho: se música ou se ciência. Depois de muito pensar determinei que a música deveria ser um passatempo e minha maior atividade deveria dirigir-se para a ciência em todos os aspectos”.

Depois de uma tal declaração naturalmente a gente deseja detalhes de como um trabalho científico era feito e em que condições. Lester Coltman é claro em todos os pontos. “O laboratório sob a minha direção é inicialmente ligado ao estudo dos vapores e fluidos que formam a barreira que, penso, por meio de profundo estudo e experiência, somos capazes de atravessar. O resultado dessa pesquisa, pensamos nós, provará o “Abre-te Sésamo” da porta de comunicação entre a Terra e essas esferas.” (…)

10 – No Mundo Maior – André Luiz – pág. 219

17. NO LIMIAR DAS CAVERNAS
Reunidos agora, Calderaro e eu, à comissão de trabalho socorrista que operaria nas cavernas de sofrimento, fui surpreendido pela expressão da Irmã Cipriana, que chefiava as atividades dessa natureza. Constituía-se a turma de reduzido número de companheiros: sete ao todo. Avistando-me ao lado do Assistente, perguntou Cipriana com singeleza, feitas as saudações usuais: – Pretende o irmão André seguir em nossa companhia?

O abnegado amigo respondeu que o próprio Instrutor Eusébio lembrara a conveniência de minha visita aos abismos purgatoriais; esclareceu que eu me achava interessado em obter informes da vida nas esferas inferiores, para os relatar aos companheiros encarnados, auxiliando-os na preparação necessária à ciência de bem viver. A diretora ouviu, bondosa, e objetou: – Sim, a sugestão de Eusébio é valiosa, em se tratando de observações preliminares no Baixo Umbral. Como responsável, porém, pelos serviços diretos da expedição, não posso admiti-lo, por enquanto, em todas as particularidades.

Fixou em mim o olhar lúcido e meigo, como a lastimar a impossibilidade, e acrescentou:- Nosso estimado André não tem o curso de assistência aos sofredores nas sombras espessas. Afagou-me de leve, com a destra carinhosa, e acrescentou: – Se nos é indispensável obter difíceis realizações preparatórias, a fim de colhermos o benefício das Grandes Luzes, é-nos imprescindível a iniciação, para ministrarmos esse mesmo benefício nas “grandes trevas”. Ante o meu indisfarçável desapontamento, a veneranda benfeitora continuou:

– No entanto, convenhamos que o nosso irmão não se encontra, junto de nós, sem problemas substanciais a resolver. Cada situação a que somos conduzidos é portadora de ocultos ensinamentos para nosso bem. Os desígnios superiores jamais nos propõem questões de que não necessitemos, na arena das circunstâncias. Se Eusébio foi levado a sugerir esta oportunidade, é que André Luiz tem nestes sítios urgente serviço a prestar. Considerando, porém, as responsabilidades que me cabem, não posso autorizar que nos siga em todos os passos: contudo, convido o Irmão Calderaro a permanecer, em companhia do prestimoso aprendiz, no limiar das cavernas, sem descerem conosco; mesmo aí, estudioso que é, ele encontrará inesgotável material de observação, sem necessidade de enfrentar situações embaraçosas, para as quais ainda não se aprestou convenientemente…

Em face da solução apresentada, alegria geral voltou a confortar-nos. Agradeci, contente. Calderaro também se manifestou reconhecido. E, no júbilo dos trabalhadores que se regozijam com o ensejo de incessantemente aprender para o bem, seguimos na direção de zona medonhamente sombria. Ah! já divisara tremendos precipícios, onde entidades culposas se interpelavam umas às outras em deploráveis atitudes; vira chover faíscas chamejantes do firmamento sobre os vales da revolta; descobrira inúmeras entidades senhoreadas por estranhas alucinações de câmaras retificadoras; mas ali…

Estaríamos acaso alcançando a “selva escura”, a que se referira Alighieri, no poema imortal? Laceravam-me o coração as vozes lamentosas dispersas a se evolarem para o céu de fumo! Não, não eram lamentações apenas; à proporção que nos adiantávamos, descendo, modificava-se a gritaria; ouvíamos também gargalhadas, imprecações. Estacamos em enorme planície pantanosa, onde numerosos grupos de entidades humanas desencarnadas se perdiam de vista, em assombrosa desordem, à maneira de milhares de loucos, separados uns dos outros, ou aos magotes, segundo a espécie de desequilíbrio que lhes era peculiar.

Não me era possível calcular a extensão da várzea imensa, e ainda que houvesse marcos topográficos, para tal apreciação, o nevoeiro era demasiado denso para que se pudessem computar distâncias. Percorremos alguns quilômetros em plano horizontal, e, quando o terreno se inclinou, de novo, abrindo outras perspectivas abismais, Irmã Cipriana e os colegas prazenteiramente se despediram de nós, deixando-nos, ao Assistente e a mim, com o aviso de que voltariam a buscar-nos dentro de seis horas. Abraçando-me, a diretora disse, gentil:

– Desejo-te, meu amigo, feliz êxito nos estudos. Certo, ao voltarmos, receberemos tuas confortadoras impressões. Sorri, encantado, a tão generosa demonstração de apreço. Logo após, Calderaro e eu nos achamos a sós na atra vastidão povoada de habitantes estranhos. As conversações em torno eram inúmeras e complexas. Pareceu-me que aquele “povo desencarnado” não se dava conta da própria situação, pelo que me foi possível ajuizar de início. Enquanto densas turbas de almas torturadas se debatiam em substância viscosa, no solo, onde andávamos, assembléias de Espíritos dementes enxameavam não longe, em intermináveis contendas por interesses mesquinhos.

A paisagem era francamente impressionante pelos , característicos infernais que nos circundavam. Notando a displicência de muitos daqueles irmãos infelizes, não sopitei as lucubrações que me surgiam. Os grupos de infortunados agiam, ali, desconhecendo os padecimentos uns dos outros. Certos grupos volitavam a pequena altura, como bandos de corvos negrejantes, mais escuros que a própria sombra a envolver -nos, ao passo que vastos cardumes de desventurados jaziam chumbados ao solo, quais aves desditosas, de asas partidas… Como explicar tudo isso? Iniciei meu interrogatório, dirigindo-me ao instrutor: – Será que estes míseros precitos nos vêem?

– Alguns sim, mas não nos ligam maior importância: estão muito preocupados consigo mesmos; abrigaram no coração sentimentos rasteiros, e tardarão em se libertarem deles. – Toda esta gente permanece, porém, desamparada, entregue a si mesma? – Não – respondeu Calderaro, paciente -; funcionam, por aqui, inúmeros postos de socorro e variadas escolas, em que muita gente pratica a abnegação. Os padecenteal e as personalidades torturadas são atendidas, de acordo! com as possibilidades de aproveitamento que demonstram. Estampou complacente expressão no rosto e considerou:

– As regiões inferiores jamais estarão sem enfermeiros e sem mestres, porque uma das maiores alegrias dos céus é a de esvaziar os infernos. Vendo bandos de seres a se locomoverem no ar, quase a nos rentear, recordei que em nossa colônia as faculdades de volitação não eram comumente exercidas para não melindrarmos aqueles que as não possuíam desenvolvidas; mas… e ali? Criaturas de baixas condições se moviam nos ares, embora a poucos metros do solo. Calderaro, porém, explicou:

– Não te surpreendas. A volitação depende, fundamentalmente, da força mental armazenada pela inteligência; importa, contudo, considerar que os vôos altíssimos da alma só se fazem possíveis quando à intelectualidade elevada se alia o amor sublime. Há Espíritos perversos com vigorosa capacidade volitiva, apesar de circunscritos a baixas incursões. São donos de imenso poder de raciocínio e manejam certas forças da Natureza, mas sem característicos de sublimação no sentimento, o que lhes impede grandes ascensões. No que se refere, entretanto, às entidades admitidas à nossa colônia espiritual, ainda em grande número incapacitadas de usar tal vantagem, o fenômeno é natural.

É mais fácil recolher criaturas de maiores cabedais de amor com reduzida inteligência, e convivermos com elas, no processo evolucionário comum, do que abrigarmos pessoas sumamente intelectuais sem amor aos semelhantes; com estas últimas, a vida em comum, no sentido construtivo, é quase impraticável. Neste capítulo da volitação, portanto, impende observar os ascendentes naturais, levando em conta, com a própria Natureza, que os corvos voam baixo, procurando detritos, enquanto as andorinhas se libram alto, buscando a primavera.

Feito o reparo, perguntei, lembrando-me das injunções terrenas: Mas… e as necessidades de subsistência? O instrutor não se fez rogado e informou:- Nada lhes falta quanto às exigências essenciais de socorro e de manutenção, como ocorre num nosocômio da esfera carnal. O Assistente fez breve pausa e prosseguiu:- Referindo-nos ao manicômio, esclareço agora que minha intenção, ao visitar um hospício em tua companhia, foi justamente o de preparar-te para a excursão que ora efetuamos. Temos aqui, nestas assembléias de incompreensão e dor, infindas fileiras de loucos que voluntariamente se arredaram das realidades da vida. Fixaram a mente nas zonas mais baixas do ser, e, olvidando o sagrado patrimônio da razão, cometeram faltas graves, contraindo pesados débitos.

Já viste, em nossa organização espiritual de vida coletiva, irmãos sofredores convenientemente amparados; alguns ainda sofrem estranhas perturbações alucinatórias, outros são guardados à maneira de múmias perispiríticas em letargia profunda, aguardando-se-lhes o despertar; outros povoam vastas enfermarias para se reerguerem espiritualmente pouco a pouco… Aqui, no entanto, se congregam verdadeiras tribos de criminosos e delinquentes, atraídos uns aos outros, consoante a natureza de faltas que os identificam. Muitos são inteligentes e, intelectualmente falando, esclarecidos, mas, sem réstia de amor que lhes exalce o coração, erram de obstáculo a obstáculo, de pesadelo a pesadelo…

O choque da desencarnação para eles, ainda impermeáveis ao auxílio santificante, pela dureza que lhes assinala os sentimentos, parece galvanizá-los na posição mental em que se encontravam no momento do trânsito entre as duas esferas, e, dessa forma, não é fácil de logo arrancá-los do desequilíbrio a que imprevidentes se precipitaram. Retardam-se, às vezes, anos a fio, obstinando-se nos erros a que se habituaram, e, vigorando impulsos inferiores pela incessante permuta de energias uns com os outros, passam, em geral, a viver, não só a perturbação própria, mas também o desequilíbrio dos demais companheiros de infortúnio.

Ante o pandemônio que observávamos, o orientador continuou:- O Érebo da concepção antiga, a crepitar em eternas chamas de vingança divina, é perigosa ilusão; entretanto, os lugares purgatoriais dos desejos e das ações criminosas, aguardando as almas enodoadas pelos desvarios, constituem realidades lógicas, nas zonas espirituais do mundo. Aqui, os avarentos, os homicidas, os cúpidos e os viciados de todos os matizes se agregam em deplorável situação de cegueira íntima. Formam cordões compactos, inclinando-se mais e mais para os despenhadeiros. Cada qual possui romance horrível, de angustiosos lances.

Prisioneiros de si mesmos, cerram o entendimento às revelações da vida e restringem os horizontes mentais, movimentando-se em seu próprio interior, em ação exclusiva, nos impulsos primários, a cultivar o pretérito que deveriam expungir. Em melhorando, são assistidos por ativas e abnegadas congregações de socorro que aqui funcionam. Autoridades mais graduadas de nossa esfera, atendendo a imperativos superiores, improvisam tribunais com funções educativas, cujas sentenças, ressumando amor e sabedoria,-culminam sempre em determinações de trabalho regenerador, através da reencarnação na Crosta Terrestre, ou de tarefas laboriosas no seio da Natureza, quando há suficiente compreensão e arrependimento nos interessados que feriram a Lei, ofendendo a si mesmos.(…)

11 – NOSSO LAR – FRANCISCO C. XAVIER – (ANDRÉ LUIZ) – cap. 121, pág. 72

(…) O plano está repleto de desencarnados e de formas-pensamentos dos encarnados, porque, em verdade, todo espírito, esteja onde estiver, é um núcleo irradiante de forças que criam, transformam ou destroem, exteriorizadas em vibrações que a ciência terrestre presentemente não pode compreender. Quem pensa, está fazendo alguma coisa alhures. E é pelo pensamento que os homens encontram no Umbral os companheiros que afinam com as tendências de cada um. Toda alma é um imã poderoso. (…)

(…) funciona, portanto, como região destinada a esgotamento de resíduos mentais; uma espécie de zona purgatorial, onde se queima a prestações o material deteriorado das ilusões que a criatura adquiriu por atacado, menosprezando o sublime ensejo de uma existência terrena.

O Umbral (…) começa na crosta terrestre. É a zona obscura de quantos no mundo não se resolveram a atravessar as portas dos deveres sagrados, a fim de cumpri-los, demorando-se no vale da indecisão ou no pântano dos erros numerosos. (…)

17 – VOLTEI – FRANCISCO C. XAVIER (IRMÃO JACOB) – cap. 7, pág. 75

Registrando o temor que se apossara de mim, o Irmão Andrade, em voz baixa, explicou-me que os planos habitados pela mente encarnada emitiam, de permeio com as criações dos Espíritos inferiores desencarnados, formas perturbadas, quando não horripilantes, de vez que a maioria das criaturas terrestres, na carne ou desenfaixadas do corpo, denunciavam-se, no íntimo, através de comportamento quase irracional. Salientou que a esfera próxima do homem comum, em razão disso, é povoada por verdadeira aluvião de seres estranhos, caprichosos e muitas vezes ferozes.

Chegou mesmo a dizer que inúmeros sábios da espiritualidade superior classificam semelhante região de “império dos dragões do mal”. Rememorei a leitura da páginas mediúnicas vindas ao meu conhecimento antes da morte e o companheiro dedicado confirmou-as, declarando que a zona em que viajávamos constituía realmente o umbral vastíssimo, entre a residência dos irmãos encarnados e os círculos vizinhos.

18 – À SOMBRA DA LUZ – ALCEU COSTA FILHO (entrevista ao Portal do Espírito ( http://www.espirito.com.br)

A-Várias linhas espirituais falam sobre um lugar de trevas, para onde criaturas que desencarnam em situação de muita dor, ódio, suicídio, etc.. acabam indo. Como e quando surgiu a palavra Umbral no espiritismo?

Amplamente usada por André Luiz através da psicografia de Chico Xavier, hoje faz parte da linguagem espírita para definir zonas de dor e sofrimento. Definida nos dicionários (Aurélio) como: “Limiar da estrada”, este sempre existiu como conseqüência natural da mente humana. Na obra Nosso Lar encontramos, nas palavras de Lísias:”O Umbral começa na crosta terrestre. É a zona obscura de quantos no mundo não se resolveram atravessar as portas dos deveres sagrados a fim de cumpri-los, demorando no vale da indecisão ou no pântano de erros numerosos”.

B-Via de regra, até quanto tempo uma alma pode passar no Umbral? Em que circunstâncias a alma pode ser resgatada e ir para uma dimensão mais elevada?
-O tempo que sua consciência determinar. (pode ser alguns minutos como séculos).
-A partir de seu despertar para as verdades eternas. Um espelho sujo não pode refletir a luz.

C-O Umbral também possui vários planos de existência?
-No Livro dos Espíritos, as questões 101 a 106 e seguintes, tratam bem do assunto, explicando-nos as diferentes categorias de espíritos. Portanto, os agrupamentos são determinados pelas afinidades vibratórias formando núcleos pela concentração de tendências e desejos gerais. Compreendemos que cada criatura vive daquilo que cultiva em qualquer dos planos de vida.

D-No livro Memórias de um Suicida nós temos um relato no mínimo tétrico dessa região e dos espíritos que ali habitam. Alguns videntes dizem que quem ali se encontra, muitas vezes não consegue enxergar espíritos consoladores, de tão densos que são os seus corpos etéricos. O senhor poderia nos falar um pouco sobre isso?

Allan Kardec, no Livro dos Espíritos, capítulo Ensino Teórico das Sensações dos Espíritos, questão 257, cita: “Não possuindo órgãos sensitivos, eles podem, livremente, tornar ativas ou nulas suas percepções”. Uma só coisa são obrigados a ouvir: os conselhos dos Espíritos bons. A vista, essa é sempre ativa; mas eles podem fazer-se invisíveis uns aos outros. Conforme a categoria que ocupem podem ocultar-se dos que lhes são inferiores, porém não dos que lhes são superiores.

E-Muitos dizem que o Umbral é o pensamento global dos sofredores plasmado no éter próximo à crosta terrestre. Isso é verdade?
Manoel Philomeno de Miranda, através da mediunidade de Divaldo, em Nas Fronteiras da Loucura, assim o descreve: “Composta de elementos que me escapavam, eram e são, no entanto, vitalizadas pelas sucessivas ondas mentais dos habitantes do planeta, que de alguma forma sofrem-lhe a condensação perniciosa”.

F-Existem espíritos além de qualquer possibilidade de resgate? É possível um espírito, de tão maligno, ter sua centelha divina extinta para sempre ou então reencarnar no corpo de um animal?

-Seria negar a justiça divina. Todos nós, por momentos ou séculos, atravessamos estas regiões. Todos fomos criados com o objetivo de evolução, e sermos condenados a penas eternas ou retroagirmos por castigo, é negar os princípios de amor e perdão pregados pelo Cristo. Na questão 194 do Livro dos Espíritos encontramos: “A alma não pode regredir, afirmar ao contrário seria negar a Lei do Progresso.”.

G-Como se dá a reencarnação de espíritos que não conseguem sair do Umbral?
-A questão 330 do Livro dos Espíritos nos responde: “A reencarnação é então uma necessidade, assim como a morte é uma necessidade da vida corporal”. Ainda no Livro dos Espíritos, questão 1006, encontramos o ensinamento de São Luís de que “ninguém é totalmente mau”. E em João, cap. 1 a 12: “Em verdade vos digo, ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo”.

Cedo ou tarde todos despertamos para a luz. Deus oferece a todos oportunidades iguais, facultando a cada um o que melhor lhe aprouver, enquanto assim o deseja, dentro do céus ou do inferno que construiu para si. Somos escravos de nossas culpas, mas também construtores de nosso amanhã. Existe uma hierarquia entre os habitantes desse plano, dentro das conquistas de cada um, de conformidade com os ideais que alimentam.

19 – INSTITUTO DE CONFRATERNIZAÇÃO UNIVERSAL – MARTHA GALEGO THOMAZ – EDIÇÕES FEESP

UMBRAL
O que é Umbral? Onde fica?
É urna pergunta bastante formulada, e muitos desejam conhecer o significado.
Umbral, conforme o dicionário Aurélio: “Soleira da porta, limiar, entrada.” Trata-se, portanto, de uma outra região; no espaço essa região é contaminada pelas vibrações viciadas de um grupo de criaturas que reúne, segundo os seus sentimentos, ansiedades e ambições.

Se visitarmos alguns lugares, na Terra, como certas dependências de uma penitenciária ou algumas reuniões com alcoólatras e criaturas inferiores, ou, ainda, enfermarias de um manicômio, vamos encontrar um clima espiritualmente irrespirável, pois a emanação de pensamentos e sentimentos indignos forma à volta dessas criaturas as vibrações que lhes são próprias.

Assim como existem essas percepções negativas no Plano encarnadas essas visível, vamos encontrar, também, entre os de mesmas condições, de sentimentos, formando verdadeiros aglomerados de seres viciados, ignorantes, e, à medida que esse número cresce, o ambiente vai se contaminando cada vez mais. Felizmente, como os vícios e os erros são diferentes, esses grupos estão separados; para manter essa separação, a fim de que não se desencadeiem males maiores sobre a Humanidade encarnada, os trabalhadores do Bem procuram manter, além das Casas Transitórias, verdadeiros postos de socorro, para que sejam atendidos todos aqueles que, através de uma lembrança de amizade ou da recordação de uma prece, tornam-se vulneráveis ao atendimento socorrista.

No primeiro plano, essas aglomerações são em grande número, exigindo sempre uma vigilância maior dos trabalhadores do Bem, para proteger os que, por meio do desdobramento do sono, vão ao encontro das pessoas queridas, ou, então, proteger os companheiros que, de esferas adjacentes, são chamados à Terra, para orientar os que buscam ajuda.

Temos tido a oportunidade de entrar em contato com um grupo desses socorristas que são chamados de “Escafandristas do Além”, isto porque se revestem de uma vestimenta que mais parece um escafandro, para mergulhar nas regiões de atmosfera densa, em busca de alguém que, no meio de um mar de vibrações enegrecidas pelo ódio, volta-se para o Mestre Jesus, pedindo socorro.

Alguns socorridos, ainda impossibilitados de respirar em regiões mais altas, são levados às Casas Espíritas, para que, entrando em contato com médiuns e orientadores de boa vontade, possam ser encaminhados às Escolas de reajuste mental, situadas logo acima da Casa escolhida, pois toda Casa Espírita, antes de ser inaugurada na Terra, tem o seu duplo entre as primeiras camadas da Crosta, para tornar esse atendimento possível.

À medida que conhecermos maiores alturas, vamos notando que esses agrupamentos inferiores vão rareando, porque recebem maiores socorros das Colónias Espirituais.

Até a terceira camada, onde estão situadas Colônias como o “Nosso Lar”, no Rio de Janeiro, o “Porto da Paz”, em Recife, e o INSTITUTO DE CONFRATERNIZAÇÃO, em São Paulo, ainda encontramos criaturas errantes, buscando abrigo.

Segundo as descrições de André Luiz, “Nosso Lar”, além dos muros, possui cercas que permitem aos vigilantes selecionar pedintes, porém, aqui em São Paulo, as nossas Casas possuem barreiras vibratórias invisíveis aos olhos dos errantes, as quais impedem a penetração daquele que vier imbuído de pensamentos negativos.

Para atravessar essa barreira é preciso que a criatura tenha desenvolvido a lealdade e a humildade, que tornam possível a absorção dos ensinamentos cristãos.

Contam-nos os Instrutores da Vida Maior que, do quarto plano em diante, não existem mais desacertos, egoísmo ou ambição, isto porque os Anjos Guardiães mantêm à sua volta um clima esplendoroso, em que o amor é companheiro dueto de todos os corações. À medida que nos aperfeiçoarmos, nos iremos aproximando deles, adquirindo, assim, condições de socorrermos, também, os que sofrem, e diminuindo, assim, os umbrais da vida.

20 – EVOLUÇÃO EM DOIS MUNDOS – FRANCISCO C. XAVIER (ANDRÉ LUIZ), p. 1, cap. 16, pág. 127

ZONA PURGATORIAL –
(…) Segundo critério idêntico, se a habilidade de um homem para manobrar determinado idioma pode cessar numa das subdivisões do núcleo da fala, no córtex, persistindo a habilidade para lidar com idiomas outros, assim também o núcleo da visão profunda, no centro coronário, pode sofrer disfunção específica pela qual um Espírito desencarnado contemplará tão-somente, por tempo equivalente à conturbação em que se encontre, os quadros terríficos que lhe digam respeito às culpas contraídas, sem capacidade para observar paisagens de outra espécie; escutará exclusivamente vozes acusadoras que lhe testemunhem os compromissos inconfessáveis, sem possibilidade de ouvir quaisquer outros valores sônicos.

Tanto quanto poderá recordar apenas acontecimentos que se lhe refiram aos padecimentos morais, com absoluto olvido de fatos outros, até mesmo daqueles que se relacionem com a sua personalidade, motivo pelo qual se fazem tão raros os processos de perfeita identificação individual, na generalidade das comunicações mediúnicas, com entidades dementadas ou sofredoras, comumente estacionárias no monoideísmo que as isola em tipos exclusivos de recordação ou emoção, de vez que, nessas condições, o pensamento contínuo que lhes flui da mente, em circuito viciado sobre si mesmo, age coagulando ou materializando pesadelos fantásticos, em conexão com as lembranças que albergam.

E esses pesadelos não são realmente meras criações abstratas, porquanto, em fluxo constante, as imagens repetidas, formadas pelas partículas vivas de matéria mental, se articulam em quadros que obedecem também à vitalidade mais ou menos longa do pensamento, justapondo-se às criaturas desencarnadas que lhes dão a forma e que, congregando criações do mesmo teor, de outros Espíritos afins, estabelecem, por associações espontâneas, os painéis apavorantes em que a consciência culpada expia, por tempo justo, as consequências dos crimes a que se empenhou, prejudicando a harmonia das Leis Divinas e conturbando, concomitantemente, a si mesma.

ZONAS PURGATORIAIS — Obliterados os núcleos energéticos da alma, capazes de conduzi-la às sensações de euforia e elevação, entendimento e beleza, precipita-se a mente, pelo excesso da taxa de remorso nos fulcros da memória, na dor do arrependimento a que se encarcera por automatismo, conforme os princípios de responsabilidade a se lhe delinearem no ser, plasmando com os seus próprios pensamentos as telas temporárias, mas por vezes de longuíssima duração, em que contempla, incessantemente, por reflexão mecânica, o fruto amargo de suas próprias obras, até que esgote os resíduos das culpas esposadas ou receba caridosa intervenção dos agentes do amor divino, que, habitualmente, lhe oferecem o preparo adequado para a reencarnacão necessária, pela qual retornará ao aprendizado prático das lições em que faliu.

É dessa forma que os suicidas, com agravantes à frente do Plano Espiritual, como também os delinquentes de variada categoria, padecem por largo tempo a influência constante das aflitivas criações mentais deles mesmos, a elas aprisionados, pela fixação monoidéica de certos núcleos do corpo espiritual, em detrimento de outros que se mantêm malbaratados e oclusos.

E porque o pensamento é força criativa e aglutinante na criatura consciente em plena Criação, as imagens plasmadas pelo mal, à custa da energia inestancável que lhe constitui atributo inalienável e imanente, servem para a formação das paisagens regenerativas em que a alma alucinada pelos próprios remorsos é detida em sua marcha, ilhando-se nas consequências dos próprios delitos, em lugares que, retendo a associação de centenas e milhares de transviados, se transformam em verdadeiros continentes de angústia, filtros de aflição e de dor, em que a loucura ou a crueldade, juguladas pelo sofrimento que geram para si mesmas, se rendem lentamente ao raciocínio equilibrado, para a readmissão indispensável ao trabalho remissor. Pedro Leopoldo, 23-3-58.

LEMBRETE:

1° – (…) imenso território da névoa que desempenha as funções de alfândega da Espiritualidade (…) Waldo Vieira

2° – (…) situado entre a Terra e o Céu, é dolorosa região de sombras, erguida e cultivada pela mente humana, em geral rebelde e ociosa, desvairada e enfermiça (…) André Luiz

3° – O Umbral (…) começa na crosta terrestre. É a zona obscura de quantos no mundo não se resolveram a atravessar as portas dos deveres sagrados, a fim de cumpri-los, demorando-se no vale da indecisão ou no pântano dos erros numerosos (…) Néio Lúcio

4° – (…) funciona, portanto, como região destinada a esgotamento de resíduos mentais; uma espécie de zona purgatorial, onde se queima a prestações o material deteriorado das ilusões que a criatura adquiriu por atacado, menosprezando o sublime ensejo de uma existência terrena. André Luiz

5° – (…) O plano está repleto de desencarnados e de formas-pensamentos dos encarnados, em verdade, todo espírito, esteja onde estiver é um núcleo irradiante de forças que criam, transformam ou destroem, exteriorizadas em vibrações que a ciência terrestre presentemente não pode compreender. Quem pensa, está fazendo alguma coisa alhures. E é pelo pensamento que os homens encontram no Umbral os companheiros que afinam com as tendências de cada um. Toda alma é um imã poderoso. (..) André Luiz

Edivaldo

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Sobre aricarrasco

sou simples mas co objetivos e convicções definidos.
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