Ação dos pais na educação moral dos filhos
Clara Lila Gonzales de Araújo

No capítulo XVIII, de O Evangelho segundo o Espiritismo, há interessante ressalva de Allan Kardec sobre o ensino dos Espíritos superiores, alertando-nos de que “nenhum dos que o recebam, diretamente ou por intermédio de outrem, pode pretextar ignorância”. 1 Com o mesmo cuidado, o insigne Codificador exorta-nos para que possamos aproveitá-lo com afinco, transformando-nos moralmente e não apenas admirando-o como coisas interessantes e singulares sem tocar-nos o coração e sem alterar a nossa maneira de ser.

Um dos mais valiosos aforismos encontra-se na definição de moral dada pela Doutrina Espírita:
A moral é a regra de bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal. Funda-se na observância da lei de Deus. O homem procede bem quando tudo faz pelo bem de todos, porque então cumpre a lei de Deus. 2 No entanto, a despeito dos preceitos doutrinários que nos chegam do mundo espiritual, não obtemos resultados mais significativos na formação moral das crianças e dos jovens que educamos e, a cada dia, surpreende-nos a diversidade que surge da maneira pela qual a moralidade é interpretada, mormente a que se origina de transformações sociais profundas e que influenciam os procedimentos de toda uma geração; costumes nem sempre compatíveis com a justiça e a ética e que interferem na transmissão de ensinamentos para aquisição de hábitos salutares que tentamos infundir para melhoria do comportamento dos filhos. Por essa razão, unicamente, hábeis sermões dirigidos a eles não são suficientes para uma educação moral verdadeiramente eficaz. Mas – questionarão os pais apreensivos –, o que é necessário fazer para superação desses obstáculos? É oportuno destacar certos aspectos que, possivelmente, intervêm na educação que ministramos.

Importante alerta é dado, pelos benfeitores espirituais, na resposta à questão 208, de O Livro dos Espíritos, ao afirmarem que os pais exercem grande influência sobre os rebentos,
transformando-se, o ato de educar, numa missão para o desenvolvimento deles e “tornar-se-ão culpados, se vierem a falir no seu desempenho”. 3 Cabe-nos perguntar: somos coerentes com os ensinos que irão preponderar, positivamente, nas condições de adiantamento de nossa prole? Embora seja inegável que discursos morais, sobretudo os de caráter espírita, entusiasmem as pessoas, é preciso pensar nas qualidades e exemplos daqueles que os proferem, nem sempre condizentes com as regras de conduta que pregam.

Nesse caso, a educação moral é transmitida, não no sentido de ser, mas no de parecer. Vinícius, em uma de suas obras espíritas, considera que “quando se trata de qualidades e virtudes, é muito mais fácil simulá-las que adquiri-las”. 4

Ao final, deduz o autor: A Moral, considerada outrora por Sócrates como a ciência por excelência, consiste hoje em acompanhar passivamente a opinião da maioria dominante, com menosprezo, embora, dos mais comezinhos princípios do decoro e da decência. 5

Grave advertência para não nos deixarmos entusiasmar por estilos e preconceitos de certos ambientes sociais, pois, sem o sentirmos, esse modo de viver se transforma em hábito, condicionando-nos e estabelecendo estreitos limites para nossa evolução espiritual.

O Espírito Valérium se expressa sobre o assunto por meio de metáfora, ao comparar a similaridade da vida na Terra a um rio caudaloso e que, como espíritas, em muitas ocasiões, é preciso nadar “contra a corrente dos preconceitos e prejuízos da convenção”, 6 mesmo que o percurso normal de nossa trajetória seja viver com todos, sem nos tornarmos criaturas antissociais.Assegura, ele: Descer a favor da corrente do mundo é sempre fácil. É só deixar-se levar. Acumpliciando-se sistematicamente com as ações da maioria. Descer a favor da corrente do mundo é sempre fácil. É só deixar-se levar. Acumpliciando-se sistematicamente com as ações da maioria.

Jamais se indispondo contra o erro. Só dizendo “sim” para tudo e para todos. Seguindo despreocupadamente, sem o exame dos próprios atos. […]
Mas, subir contra a corrente do mundo é mais difícil.
É preciso valor para enfrentar a adversidade.
É necessário paciência para fugir aos erros de tradição.
É indispensável ser forte para tornar-se exceção no esforço maior.7

Precisamos manter as atitudes que assumimos ao nos identificar com os ensinamentos da Doutrina Consoladora – teorias que nascem da reflexão pura e sincera e que se transformam em práticas conscientes a serem aplicadas nas experiências do cotidiano, de maneira espontânea, natural, tanto na vida privada como em sociedade. Contudo, motivar nossos filhos para a aquisição de qualidades essenciais, baseadas na ética e na moral dos costumes, não consiste, somente, em absorver o verdadeiro pensamento do Espiritismo, sem termos dúvidas de segui-lo fielmente, mas está, também, na ação a ser exemplificada e promovida no ato de corrigir (ensinar) para tomada de consciência daqueles que educamos.

Em uma das obras de Aristóteles (384-322 a.C.), Ética a Nicômaco (apud HOURDAKIS, 2001), que constitui sua teoria mais ordenada a respeito dos valores morais, ele analisa a virtude não como um conhecimento, […] mas um hábito voluntário (hexis proairetikê) e um uso. Em outros termos, não se trata de uma predisposição natural, mas de algo que resulta de uma atividade e de um exercício perseverante e que não se adquire mediante o ensino, mas pela prática. A ética do homem se forma a partir do hábito, que significa familiaridade e essa ética se adquire, primeiramente, no interior da família e depois na cidade estado, que legisla tendo em vista a educação correta dos cidadãos. 8

Ponderação corroborada Allan Kardec, ao afirmar que não se refere à educação moral adquirida pelos livros, mas “[…] sim à que consiste na arte de formar os caracteres, à que incute hábitos,
porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos.9 Há, pois, necessidade de estimular nossos filhos ao exercício da prática de ações que possam persuadi-los a agir
com honestidade, justiça e caridade.

Ajudá-los para se tornarem “homens de bem”, incentivando-os às boas iniciativas e organizando atividades cotidianas de modo fértil, fazendo com que desenvolvam suas experiências, tanto na vida moral, como na social, de forma equilibrada e saudável.

Kardec, exímio educador, exalta, pelo exemplo, as explicações para aquisição das virtudes que o Cristo ensinou, ao oferecer-nos rica metodologia de como educar os seres sob
a nossa guarda. No capítulo XIII, de O Evangelho segundo o Espiritismo, lega-nos extraordinária lição: Quem é esta mulher de ar distinto, de traje tão simples, embora bem cuidado, e que traz em sua companhia uma mocinha tão modestamente vestida? Entra numa casa de sórdida aparência, onde sem dúvida é conhecida […].À sua chegada, refulge a alegria naqueles rostos emagrecidos.
É que ela vai acalmar ali todas as dores.

Traz o de que necessitam, condimentado de meigas e consoladoras palavras […].
[…] Por que se faz acompanhar da filha? Para que aprenda como se deve praticar a beneficência. A mocinha também quer fazer a caridade. A mãe, porém, lhe diz: “[…] Quando visitamos os doentes, tu me ajudas a tratá-los. Ora, dispensar cuidados é dar alguma coisa. […] Aprende a fazer obras úteis e confeccionarás roupas para essas criancinhas. Desse modo, darás alguma coisa que vem de ti. […]” 10 (Grifo nosso.)

Essa orientação-modelo de como ministrar lições de cunho moral que, de modo exaustivo, repetimos verbalmente aos filhos, contrapõe-se à maneira repressiva de educar, sem nos precavermos para não aumentar, excessivamente, a carga que pesa sobre os ombros daqueles que criamos, ao querer que demonstrem conduta moral irrepreensível, sem ainda terem clara consciência de como manifestar isso.

Ao auxiliarmos para que se tornem pessoas moralmente melhores, precisamos incentivá-los a pensar sobre a ação a ser praticada, desenvolvendo posturas que os façam ter espírito de iniciativa nas realizações voltadas para o bem proceder, sem esperar, contudo, que conquistem expressivo progresso moral em apenas uma existência, de acordo com os princípios espíritas.

É fundamental, pois, estudar a Doutrina e o Evangelho de Jesus, embasando-nos pelo estudo, especialmente quando estivermos ao lado de outros pais (em reuniões, grupos, ciclos de encontros etc.), para valorizar e analisar as vivências do cotidiano familiar e as implicações decorrentes desses problemas na educação das crianças e dos jovens que protegemos e amamos.

Referências:

1KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 129. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Cap.18, item 12, p. 332.
2_____. O livro dos espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 91. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Q. 629.
3_____. _____. Q. 208.
4VINÍCIUS (pseudônimo de Pedro de Camargo). Nas pegadas do mestre. 12. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. Ser, e não parecer, p. 71.
5_____. _____. p. 72.
6VIEIRA, Waldo. Bem-aventurados os simples. Pelo Espírito Valérium. 15. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Cap. 39, p. 101.
7_____. _____. p. 100-101.
8HOURDAKIS, Antoine. Aristóteles e a educação. Trad. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Edições Loyola, 2001. Cap. A etologia da educação, p. 56.
9KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 91. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Comentário de Kardec à q. 685a.
10_____. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 129. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Cap. 13, item 4.

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